Wednesday, March 25, 2015

Os Abutres


Os abutres:
I
morre um poeta
cai um avião
os abutres
limparão os corpos
deixando os ossos
espalhados
na montanha;
roubarão ao poeta
as palavras não-ditas
que ele fora amortalhando
como se adivinhasse

Bastaria morrer
para que se abrissem
as páginas dos jornais
com o seu rosto cansado

Poderá ver de longe
com um sorriso amargo
alguma correria aos livros
mais antigos, de que ele
dizia irónico são apenas folhetos...

II
Eu guardo para mim
os primeiros encontros
no café Gelo, ao Saldanha,
diante da bica
nesses anos sessenta, onde
o sucesso pouco importava e
apenas se falava do livro
entregue para publicação
ou de algum outro
que se estivesse a ler

Vivia-se entre amigos,
era o Carlos Ferreiro quem fazia
as vinhetas e as ilustrações
que o Vítor Silva Tavares lhe pedia
para as edições eETC.
Os seus desenhos eram ampliação
da palavra mais negra, mais oculta
batiam no coração

E anos mais tarde, já depois
da Revolução de Abril,
era com o Alberto Pimenta
outro poeta, um amigo de sempre,
que se discutia o interesse
da tão aguardada nova escrita:
escassa e rara, fazia-se politiquice,
não se lia, e era assim que o poeta
entristecia

Pego ao acaso num desses "folhetos"
que ele sabia enviar-me, sabia que eu gostava
fui sempre fiel e lia -
desde A Colher na Boca não mais me separara

E aqui o tenho e leio,
um deles,
as folhas amareladas de
O Corpo  O Luxo A Obra:
reparo que há lá dentro uma carta
de que não me lembrava,
estamos em 1978 e ele escreve a agradecer
algo que eu lhe tinha enviado:
uma carta gentil, caligrafia miudinha,
de letra bem desenhada...

Para O Corpo O Luxo A Obra
ele escolhera uma epígrafe de Húmus,
anterior de dez anos (1966/67) mas já fecha o seu livro
com a Tabula Smaragdina, de Hermes Trismegisto,
o Pai fundador da alquimia:
é um aceno discreto que me faz
recordando que também ele estudava
o ouro da alquimia que se gera a si próprio
no interior da terra

queria ver talvez se eu tinha mesmo chegado
ao fim do seu folheto, que o não era,
era já o poema contínuo de uma vida
ela sim forrada por dentro a folha de ouro,
o ouro das palavras
"o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra".

Despeço-me, aqui mesmo,
como no café Gelo,
sem saber até quando

A mim, também já de saída,
citar ou evocar já não me chega,
aguardarei o sinal que a Mãe
na véspera me tinha dado
mas sem dizer mais nada:
era um sonho,  vejo a Mãe,
aguardando de pé, elegante e de negro
enquanto à sua frente, na mesa coberta
por toalha de linho, vários talheres de prata
iam ser arrumados

Vejo-a que espera.
Sei que virá alguém
para arrumar aquele resto de vida:
era afinal o Poeta,
o filho tão aguardado...

( escrito a 25 de Março, ainda com o choro no silêncio da alma)




Monday, March 16, 2015

Valério Romão

DA FAMÍLIA, de Valério Romão, edição recente da abysmo, consegue surpreender-me como Boris Vian, quando o li pela primeira vez. São contos, mas são muito mais do que isso.
Tanto mais que tenho dificuldade em situar esta sua obra, com um pequeno espelho na capa que nos reflecte a nós, seus leitores, e onde ele certamente não precisou de se ver.
Se a nota biográfica não foi inventada - toda a escrita nele é inventada para deleite nosso e dele (estou a ver como se concentra e ao mesmo tempo se diverte, qual surrealista ao modo de um Buñuel ou de um Dali) e nos confronta com uma prosa escorreita, tão escorreita que de novo surpreende porque a transforma por meio de situações inusitadas, ritmos galopantes, rios que vão em associações de vagas que ele galopa...
Valério , terá mesmo nascido em 1974? Tão jovem e já tão "lido" revela uma consciência aguda do que diz mas atravessada por um imaginário sub- que evoca Lautrémont, o stream of consciouness,  um Ionesco de herança francesa e um Beckett mais recente e à moda, Valério corre no seu caminho, que atravessa com um maravilhoso (por vezes doloroso, ou antes cruel)  sentido de humor, raríssimo entre nós.
Esta é uma obra notável, que teremos de ler, quem sabe múltiplas vezes até a decifrar por completo. Tem chave, que ele não diz onde ficou escondidad: Noites de insónia? Fugas a algo de intolerável? Haverá de tudo. Logo pelo título, que sendo da família é dele no centro dela.
Descubro que há uma colaboração sua no VÔO Rasante, antologia de que falei atrás :"Dez Razões Para Aspirar A Ser Gato",p. 185.
A situação é aparentemente simples: uma criança que na festinha da escola terá de ser gato, enquanto outras serão príncipes ou cavaleiros, ou mesmo ovo (adivinhamos que se trata de uma encenação de Alice no País das Maravilhas), e as peripécias que se vão seguir, desde o momento em que ele declara que não, não quer ser gato, até ao final, em que o ser gato faz dele no palco o herói da peça (da vida?). A narrativa é entrecortada de memórias de adulto, mas a mim,na verdade, o que me chamou a atenção foi a recusa de uma criança, a aceitação imposta, e um final que não a reduziu ao nada que ela temia.
E avanço para um episódio familiar: nessa mesma idade das fetinhas escolares, um dos meus sobrinhos chega a casa e diz aos pais (não diz, antes declara) "eu não vou de padeirinho! "
- Que mal tem, é divertido, todos vão de qualquer coisa....
- Já disse, eu não vou de padeirinho.
Sei que não foi de padeirinho e também já nem sei se chegou a ir à festinha que tanto o aborrecia.
Do mesmo modo, esse meu sobrinho, de quem gosto muito, pela clareza com que diz o que escolhe ( e nem isso hoje é fácil, muito ao contrário do que se pense) chegou um dia a casa, já no fim do liceu, e disse (declarou) quero ser paraquedista, das forças especiais.
E assim foi. Esperava-se que fizesse um dos chamados bons cursos, direito, engenharia, medicina - cursos que havia na família, avôs, pais e tios, mas não.
Se ao outro, o nosso Valério, o Gato de Alice (que era na realidade um sedutor, como todos os gatos, mas ainda por cima filosofante) devolveu a consciência de ser, ao meu sobrinhito que na altura nada queria saber de festas com padeirinhos foi a  escolha de uma profissão exterior ao que seria habitual na família que fez dele o homem, o pai de família que hoje é.
(Só para memória, recordo que nas suas missões andou sempre nos teatros de guerra da "nova" Europa, não houve facilidades).
Em resumo, cada um de nós é o que é e a sua circunstância....e eu ainda hoje leio e releio a ALICE, como acho que lerei e relerei Valério Romão, neste conto arrasante!





Sunday, March 15, 2015

Vôo Rasante

Sim, acrescentei um acento, no Post, que também ele pode voar, mas aqui antes envolve a proposta de leitura.
Para mim não há acordos, mas pode haver e aprecio a criatividade do designer.
 O título desta bela antologia é pois Voo rasante, sem acento. E os dois Oo voaram para o alto da capa, onde vibra um V grande vermelho, que nos chama a atenção.
Helena Vieira, que fez a coordenação, oferece-nos uma bela  proposta de leitura de poetas contemporâneos, alguns que já li e reconheço, como João Paulo Esteves da Silva, compositor, e que tem buscado na Palavra Oculta da Cabala judaica o sentido profundo, o mistério do Ser.
O seu poema, um ciclo, como se fosse um  hino, tem de ser lido lentamente. Com ele chegaremos a essa Árvore plantada no ar, de que falavam os místicos. Deu como título ao poema ( um cântico na verdade) UMA ÁRVORE DO CAMPO (p. 75 e segs.)
Não se trata do campo do nosso Alberto Caeiro, embora Pessoa tivesse também ele a sua árvore plantada no ar e os heterónimos possam ser vistos como ramificações ampliadas de uma busca perpétua. O poema de João Paulo remete para leituras do Antigo Testamento, para o Cântico dos Cânticos, e para a actualização de uma língua que se perdeu, na sua hermética simbólica, e que ele tenta recuperar. Recriou, no poema,  a Terra Prometida. O coração de judeu de que nos fala é o coração de um Paul Celan: só ele, na sua poesia ignorada durante tanto tempo, recupera o coração que é "madeixa" imortal, e abre a porta sagrada da Palavra aos outros sobreviventes.
Mas não é este o tom geral da poesia escolhida para esta obra: encontramos uma coloquialidade directa, em muitos dos poemas, expressão do dia -a -dia, com um experimentalismo que me leva a ir buscar à estante dos velhos amigos o volume da PO-EX, ou os caligramas da Ana Hatherly (poeta e pintora), para não falar dos exercícios poéticos ou performativos sempre inovadores do Alberto Pimenta. Podemos ler hoje, como líamos outrora, A IDADE  da  ESCRITA  de A. Hatherly
O que quero dizer é que a poesia é de todas as idades, para todas as idades.
Houve uma Antologia da Poesia Portuguesa de 1940-1977 - estava na hora de nos chegar às mãos uma Antologia recente, com poesia de agora.
E o que é o mundo de agora, para muitos destes poetas?
O da leitura em desassossego, o do trabalho, o das horas que pesam, ou que não contam, e também o dos sentimentos) sim, não há que ter receio de exprimir sentimentos) como descubro, por exemplo, em Pedro S. Martins, a páginas 135, ("és o que ao acordar mais procuro"...) ou nas páginas seguintes de Raquel Nobre Guerra, impetuosa, no ritmo e na memória coloquial e expressiva, sem recusar o "calão" do seu dizer.
Numa altura em que tanto se fala da incultura dos jovens, descobrimos, nestes poetas, uma cultura, clássica ou moderna, remetendo para leituras e reflexões que lhes alimentam a escrita.
Porque o vôo da Palavra é permanente, vem de longes tempos, das tabuínhas assírias (agora destruídas) até à muito mais recente ironia de um Chesterton, citado por Leonardo Gandolfi, na sua ESCALA  RICHTER (p.89-90).
Este é um dos poemas que gostaria de citar por inteiro, mas perdoem-me os leitores: comprem o livro e leiam!
E há mais tantos outros...vou lendo, e por aqui andarei de certeza, vamos falando, com tempo.



Saturday, March 14, 2015

Ao Miguel Vaz, evocando o seu pai...


A Manuel José Vaz
(in memoriam)
e ao Miguel, evocando o seu pai

Para onde vamos
no corredor de luz

ao fundo
a cesta de vime
carregada de frutos

uma árvore aguarda
virada para o céu

o bambú que floriu
jaz caído no chão

tem de ser resgatado

também é nossa 
a terra 
a treva

a raiz
que o cobriu

(14 de Março de 2015)

Friday, March 13, 2015

António Pinho Vargas

António Pinho Vargas, em entrevista ao Pedro Boléo, no Público.
O que ele define como uma espécie de reencontro consigo mesmo, através do reencontro - que é sempre uma forma de renovação - com a sua obra, desde a primeira composição até agora, só pode ser uma ocasião feliz da sua vida.
Ele refere esse momento raro, da felicidade concedida aos artistas. Revejo-me no que ele define como revisitação dos seus últimos 30 anos.
Embora eu seja mais velha, a nossa geração é a mesma.
Tinha eu feito para a minha licenciatura uma dissertação sobre Robert Musil, e convidada a ir ao Porto para falar um pouco desse autor que à época não era conhecido entre nós, - e deparo no público com um pianista que gostava e lia filosofia e queria saber mais de Musil.
Gosto do Pinho Vargas desde aí: pela sua curiosidade intelectual, que também o conduz na inspiração da arte que é a sua, evoluindo sempre, caminhando e procurando sempre aquele que em cada momento será o novo som, a nova inspiração.
Ouvi-o na Culturgest, faz uns anos.
Espero vê-lo neste concerto, que é marca dele, sem dúuvida, mas que é marca nossa - os que agora envelhecem (é assim que me sinto) um pouco perdidos na relação com o mundo.
Pedro Boléo, excelente crítico, deixa o seu convidado falar, na entrevista.
E quem diria que para ele, Professor e compositor é também, como para mim, enquaanto antiga Professora, o século preferido, o que sempre chamei de séc. I da Modernidade (não confundir com modernismo). O das ideias fundadoras que recentemente, com ajuda da Prof. Manuela Nunes, tentei trazer ao nosso tempo pela via de Lessing e do seu drama líriio Nathan der Weise!
Fechei com esta peça a minha veia de tradutora (em verso livre). Alguém a lerá um dia...como acabaram a ler um Musil ignorado.

Dito isto , divagação saudosa, espero que, enquanto não saia um disco, a sala do São Luiz esteja repleta para a subtileza e o maravilhoso encontro de Pinho Vargas com o seu  público.

Monday, March 02, 2015

Antonio Carlos Cortez

Está na hora de eu rearranjar os títulos dos meus blogs, que pressupõem temas, indicações, algo assim.
Agora não coloco imagens, e aqui era suposto, quando comecei, há anos, "abrir" o leitor ao sentido de um texto ou de uma imagem, ou de ambos.
Assim a Arte, como eu a desejava ir apresentando, foi desaparecendo.
Fica o texto.
Mas mesmo para um texto  a busca se está a tornar difícil.
Modestamente procurava eu um poeta, na rede imensa da net.
É jovem, é português.
Mas tudo o que me aparecia, no google, por qualquer razão, eram senhores de alguma idade, e oriundos da Colômbia!
Facebook, blogs, etc. - em nada me ajudaram.
O que eu queria era simples, além de alguma informação extra, uma imagem se houvesse.
O que me leva a pensar como o excesso, a abundância, confundem, fazem perder tempo, não ajudam.
O acesso à informação devia ser mais simples, ou mais simplificado, agora que se pode, ao que dizem, fazer tudo.
O tempo é uma das preciosidades que devemos poupar.
Mas como, se a distracção é permanente, rodopia, faz de nós cataventos na net, e pelo meio a dada altura ( a dada idade?) o pensamento se perde?
Volto ao pensamento incial.
Fechar os blogs, abrir um único com um título mais adequado?
Enquanto fiz alguns seminários para adultos, criei, durante dois anos, para duas turmas de vinte e poucos alunos os blogs de cultura visual e de escrita criativa.
Eram textos de ajuda à reflexão e ao estudo, para os seus futuros trabalhos, dando exemplos mais do que teoria excessiva, que não teriam tempo de ler.
Mas de repente reparo que na escrita criativa já publiquei alguns poemas meus - e não era nada disso que devia fazer!
Lembrei-me de uma entrevista da Adília Lopes em que ela dizia um escritor escreve todo o tempo, na sua cabeça, depois aponta ou não num caderno, ou onde fôr, o que esteve mentalmente a escrever.
E é mesmo assim. Quem escreve sabe que é assim.
Outrora eu de noite dava-me a esse trabalho, de pegar no caderno e apontar o que de cabeça, na cabeça, tinha escrito.
Agora, sentada no sofá, nem me levanto.Penso: o que eu não digo agora alguém dirá mais tarde.
E antes procuro um livro para ler.

Estava eu a falar do excesso, mas na verdade tenho já um livro na mão, é de um jovem poeta (para mim, a caminho dos oitenta anos, como digo, é mesmo jovem...) e tal como eu gostou de descobrir e de estudar Fernando Pessoa.
Deixei de escrever sobre Pessoa, a partir do momento em que tantos estudiosos (alguns ajudei nos seus doutoramentos) estavam a dedicar-se à sua Obra.
Fiz bem, pois por mim já sabia o que tinha encontrado nele, de desafio permanente. Foi bom dar lugar a outros.

Tenho então um livro à minha frente: LINHA DE FOGO, de António Carlos Cortez.
Páginas de poesia e prosa que se seguem em curso natural como o rio que Ricardo Reis gostava de contemplar, incitando Lídia a fazer o mesmo.
Ficar, para poder ser, enquanto ser é possível:
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)"
A ode segue, num apelo ao não chegar a ser, não chegar a sentir, ou mesmo existir, num paganismo que se diz inocente, mas que de inocente nada tem. Bebeu o imaginário clássico antigo, de mistura com o esoterismo mais recente, de anulação e entrega.
Este rio é o que noutro poema, que Eduardo Lourenço gostou de nos citar outrora, num primeiro seminário que nos deu na recém fundada Universidade Nova é o mesmo rio perante o qual Pessoa se interroga "o que é ser rio e correr/ o que é está-lo eu a ver..."
A interrogação é o que distingue o nosso poeta, neste caso Reis, no contexto do Modernismo e do experimentalismo exacerbado de outros contemporâneos seus, como Almada Negreiros, e os seus outros heterónimos. A interpelação distingue melhor A.Cortez.
A interrogação é o enfrentamento com os vários patamares da consciência, por exemplo os três do Zohar, na Kabbala Revelada, ou nos vários graus da iniciação maçónica, de que o de Mestre é para ele sem dúvida o de maior elevação (perplexidade?).
Nada de arroubos como os de Álvaro de Campos, na sofreguidão bebida em Whitman, ou na curiosidade insaciável escondida nas   célebres iniciações da Golden Dawn de Israel Regardie, ou de mistificações sedutoras como as de Aleister Crowley, fundador dessa sociedade secreta junto com S.L.MacGregor Mathers, que traduziu do latim a KABBALA DENUDATA, contendo os três livros do Zohar: O Livro do Mistério Oculto ; A Grande Asembleia Sagrada; A Pequena Assembleia Sagrada.
A tradução é feita a partir da versão latina de Knorr von Rosenroth, fundador do movimento Rosa-Cruz, no século XVII (sendo As Bodas Químicas de Christian Rosencreutz, 1459 - um dos livros mais lidos, por Goethe, entre outros, e cuja simbólica se redescobre nos vários momentos da iniciação maçónica e hermética). Tudo isto Pessoa leu, as obras de referência podem ser encontradas na sua biblioteca ( se não foram vendidas para o Brasil...).
Mas falava eu de  outro poeta, António Carlos Cortez: pessoano, como se costuma dizer dos estudiosos. Apontava, nos seus poemas, uma interpelação: ao quotidiano, horizontal, que logo se pode esquecer, mas talvez mais ao tempo da memória vertical, revelada, mais perto da experiência da palavra . Um dos patamares do Mistério acima referido. Pois todo o mistério revelado é feito da Palavra.
Encontro em LINHA DE FOGO uma realidade (uma objectividade lírica) por vezes detalhada, por vezes aguardada ou recusada, mas sempre interpelada, de exigência absoluta, uma palavra-corpo em carne viva. Memória e sofrimento, como se na memória nunca parasse o tempo. Não sendo eu capaz de fazer melhor ( o tal copy-paste) e porque um blog para ser lido não deve nunca alongar-se, farei como fez E.Lourenço, não por preguiça, mas para meditação, minha e dos outros, escolhendo do poema AO LEITOR uns últimos versos:
"...
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dôr e os actos

aos pouco sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
(p.44)

A.Cortez tinha antes deixado um desafio: "se somos o que fazemos...", dirigindo-se a esse leitor imaginado.
Mas sabe que não é assim, escava nas fábulas, usando as suas palavras, isto é,  escava no tempo e na memória, escava como Celan escavara, gota a gota de sangue na palavra, pois só escrever salvava.
Não é por acaso que abre o seu livro com uma referência à "matéria inflamável da grafia", unindo deste modo matéria e energia (o fogo) ou tempo e espaço. O título deste poema inicial é MARÉ VAZA. A onda anímica, aquática, da criatividade atravessa a obra, e também não será por acaso (será antes por alguma sincronicidade, ao modo Junguiano) que o livro é fechado com uma LITANIA DO TEMPO, que lida em voz alta nos embala e comove. Vejamos um pouco do que digo:
" Em vagas vem o tempo ter contigo
e traz consigo a pedra transitória
tempo mortal e vivo do destino
...
O tempo é um mar soterrado e limpo
e à superfície reconheces rostos
...
(os livros que tens escrito são a opaca
recordação do sangue aquático
ardendo de cada vez no texto morto
os episódios vibrando biográficos
vindos da adolescente claridade)
...
O tempo linear uma ilusão... "
(p.62-63)

E ficarei por aqui.
É em verdade de Tempo que se fala, e se é certo que Pessoa não morreu, este poeta é na mesma chama que vai ardendo e vive. Se o fogo é água, se o tempo é mar, António Cortez, como Pessoa-Reis,  
em silêncio, contempla.
Belos poemas, belo livro!









Sunday, February 01, 2015

Paul Celan os primeiros poemas

Sinto que neste ano em que se evocam as duas guerras que assombraram, pela sua violência, o século XX, uma palavra de evocação é devida, por nós, poetas e tradutores, a um dos maiores poetas desse tempo de trevas de que a libertação salvou alguns mas deixou à mesma que morressem outros, como Paul Celan, sob o tremendo peso da memória.
Assim, tentarei deixar aqui a minha homenagem.
Farei em breve 75 anos, mas nunca teria existido se em 1939 o meu pai não tivesse trazido de Paris a minha mãe. Jovem, idealista, estando a viver em Paris com a irmã mais velha, podia não ter tido a sorte dessa minha tia, casada com um francês e que talvez por isso tenha sido poupada. A minha mãe fez de Portugal a sua nova pátria, enquanto a guerra  assolava o mundo, com uma Alemanha  contaminada por uma ideologia perversa de extermínio. Celan, um sobrevivente, coloca nas palavras o Sopro do sofrimento de um povo exterminado, exterminável, apenas por ser de outra raça, outra cultura, outro saber e inteligência do mundo.
Aqui fica uma parte do meu pequeno testemunho de gratidão a quem tanto amou a palavra redentora.


CELAN E MAIS CELAN
(Os Primeiros Poemas)


Quem já conheça em parte a poesia de Paul Celan, nas edições feitas por João Barrento e por mim, anos atrás, gostará certamente de ler este pequeno conjunto em que podemos ver de que modo vão tomando forma imagens, motivos e ideias centrais e estruturantes do seu imaginário.
Do título geral, A Areia das Urnas, aos títulos dos dois ciclos propriamente ditos (Aos Portões ; Papoila e Memória) e de cada poema, como se verá adiante, um único motivo: a morte.
A morte em todo o lado presente, do lado de cá dos portões, onde o poeta se encontra (do lado de lá estaria a vida, como na poesia de Fernando Pessoa em tantos dos seus poemas ortónimos e heterónimos).
Mas a morte também do lado de lá: lá para onde pai e mãe foram levados, como milhões de outros, longe dos olhos de um Deus que já não cumpria promessas e não defendia os seus. Um Deus que deixava o décimo-oitavo cântaro vazio, o cântaro da vida, na simbólica mística judaica.
A morte, habitando o espaço, a morte, habitando o tempo e tornando-o refém da voz possível, esta voz de um poeta que clama, reclama, promete não esquecer.
Celan escreve, como se diz, na língua do inimigo ( disso nos dá conta o poema intitulado “Junto aos Túmulos”, ao evocar a mãe nos dois últimos versos):

E tu, mãe, toleras como outrora, ai, na nossa terra,
a suave, a alemã, a dolorosa rima?

O alemão (como o francês) era uma língua de cultura e Celan, embora natural da Roménia, é no alemão que cresce e é educado pelos seus pais, judeus alemães. Mas era multilingue, na verdade, conhecendo bem o russo, o francês e até relativamente bem o português (traduziu Fernando Pessoa, com ajuda de um amigo).  Mas essa primeira língua, materna, mais do que o romeno da sua terra natal, era agora uma língua assassina cujos falantes devastavam a Europa, fazendo dela um enorme espaço de perseguição e ruína.
A musicalidade, que existia, era premonitória de dôr: a dôr do amor traído, a dôr da ferida sem cura, do remorso que levaria o poeta ao suicídio, em 1970. 
Remorso por ter sobrevivido.
Num dos seus mais célebres poemas “Entrada de Violoncelos” é desse remorso que nos fala, acentuando o contraste entre o realismo espacial, físico, das imagens e o tempo dos violoncelos, sendo a arte da música uma arte do tempo por excelência, mas aqui desvirtuada: há uma dôr permanente que ao fazer-se ouvir faz nascer a verdade  que se desfolha num livro que não é o da Vida. Recordo o verso final: “tudo é menos/ do que é/ tudo é mais”. É para este “mais” que em cada imagem, em cada evocação dolorosa se chama a atenção, para que a Verdade e a Vida não sejam exterminadas de vez.

O pequeno ciclo aqui apresentado ciclo data de 1940-1948 e em cada um dos poemas,  através da sua circunstância própria, poderemos descobrir, para lá da voz e do seu grito, uma paisagem que se tornou tão íntima que passou a constituir a substância mesma de todos os outros poemas que se lhe seguiram.
As mesmas árvores, com a mesma raiz invertida, a mesma cerca, a grade dos portões, as covas a descoberto ou escondidas mais longe, as nuvens que no céu se multiplicam e o tornam de chumbo, a seta perdida que a todos alcança, uma utopia em que era difícil acreditar: a da pomba da paz, algures em Avalon, o místico paraíso dos cavaleiros da Távola Redonda. 
Ainda que Celan escreva “mas eu vejo a pomba chegar, branca, de Avalon” a paz será assinada, mas a ferida da Guerra nunca mais terá cura.
Não é por acaso que num aforismo de 1949 o poeta ainda exclama “ O coração ficou escondido no escuro, e duro como a pedra filosofal”.
No discurso de 1960 em que agradece o prémio Georg Buechner que lhe fora atribuído, O Meridiano, observa Celan que “O poema é solitário. É solitário e vai a caminho.Quem o escreve torna-se parte integrante dele.” E refere ainda “o mistério do encontro”, como chave central desse caminho, feito de palavras, palavras–pedras, esculpidas com as ferramentas da memória, no esforço de ir ao encontro do outro, “um Outro” que pode ser mais do que é e pode ser menos, como no poema “Entrada de Violoncelos”. O Outro que o poeta interpela é sujeito de diálogo, de interrogação,  e de (im)possível comunicação.
Diz ainda Celan: “ Então o poema seria - de forma ainda mais clara do que até agora- linguagem, tornada figura, de um ente singular, e, na sua essência mais funda, presença e evidência”(p.56, trad. J.B.)
Por outras palavras, é o poema, afinal, que dá substância ao poeta: dá-lhe o espaço, o tempo, a manifestação da sua própria existência (de que ele poderia duvidar).
O poema é linguagem, coisa viva, mutável, e que busca e provoca em permanência essa transformação. Pode ser em pedra, ainda que não alquímica. Nem que seja resíduo, cinza, pó, matéria negra de um Sem-Fundo à espera de ordenação.
Em carta ao amigo Hans Bender, também datada de 1960, diz Celan que os poemas são oferendas:
“Oferendas que transportam um destino”(p.66, trad.J.B.)
Ao ler agora este ciclo inicial não se poderia estar mais de acordo. Aqui se faz a oferenda (devíamos dizer sacrifício) de uma obra e de uma vida, aqui se descobre que no interior da Mandorla se esconde o Nada temível, o do olhar divino desviado, o de um povo que só terá existência se não deixar que se apague a memória, o seu bem mais precioso. Haverá, a dada altura, um outro ciclo, precisamente com o título de Papoila e Memória.
Na flôr o vermelho do sangue derramado nos campos, na memória a História e o destino de todos e de cada um: pois cada ser humano é, em si mesmo, um ser irrepetível.
Com Celan, espreitamos o Nada na Amêndoa:


Mandorla 
Na amêndoa – o que está na amêndoa?
O Nada.
É o Nada que está na amêndoa.
Ali está e está.

No Nada – quem está ali? O Rei.
Ali está o Rei, o Rei.
Ali está e está.

Madeixa de judeu, não envelheces.

E o teu olhar – para onde está virado, o teu olhar?
O teu olhar está virado para a amêndoa.
O teu olhar está virado para o Nada.
Para o Rei.
Assim está e está.

Madeixa de homem, não envelheces.
Amêndoa vazia, azul real.

Este rei é o Deus soberano esquecido do seu povo, do ser primordial criado à sua imagem e semelhança, da preferência e do pacto estabelecido com a imperiosa ordem da multiplicação e dos múltiplos caminhos, todos eles caminhos do caminhar do homem. 
Nesta amêndoa, imagem de uma totalidade aberta sobre o Nada, só a madeixa de judeu não envelhece, é imortal. Ela é figuração do Um e do Todo, da perfeição, no universo criado.
Para marcar a pulsão mais secreta, do ser e do tempo, basta a pedra, a folha, a flôr, ou o suspiro que redesenha a nuvem ao prendê-la na alma.
Por essa razão se guardará a memória: do mais pequeno resquício, do mais pequeno  vestígio – a água ( ou mesmo a lama) que se vai procurar  na areia. Uma gota do cântaro, um fio de cabelo, amarelando como se fosse de ouro.
E o poeta, na soleira do sonho, pode soltar então a sua grinalda azul.

Na biografia de Celan encontramos vários momentos de grande importância. 
Nascido de pais judeus alemães em 1920, em Czernowitz, na Roménia, de nome Paul Antschel, ou Anczel, que se pronuncia do mesmo modo ( e que mudará para Celan, em jogo de espelho metafórico) concluídos os estudos liceais segue em 1938 para França, estudar medicina em Tours.Com o início da Guerra em 1939 regressa a casa e estuda na Universidade Filologia Românica.
Em 1940 a sua terra é ocupada pelos soviéticos, em 1941 por tropas alemãs e romenas que constroem um ghetto – aí começando, como na Polónia,  o primeiro grande sinal do futuro extermínio. Em 1942 os pais de Celan são deportados para um campo de concentração (a palavra correcta é extermínio), o poeta foge e é internado num campo de trabalho na Roménia. 
Em 1943 regressam os soviéticos e Celan regressa à sua terra, Czernowitz. Nos anos seguintes trabalha como tradutor numa editora, e em 1948 publica a primeira série de poemas que aqui damos a conhecer, Der Sand aus den Urnen, A Areia das Urnas. Mais tarde mandará retirar a edição do Mercado.
Em Julho deste mesmo ano de 1948 fixa-se em Paris onde retoma os seus estudos literários, de Germanística e Linguística e a actividade de tradutor: traduz Cocteau, Picasso, Simenon, poemas de Fernando Pessoa, René Char, Paul Valéry, Henri Michaux, sonetos de Shakespeare, entre outros – e por aqui se vê como estava inserido no meio cultural e artístico parisiense, em pleno convívio com os seus grandes criadores. Dos surrealistas e da sua linguagem (falsamente) desarticulada encontraremos por vezes vestígios num ou noutro exercício poético que Celan deixará sem continuidade.Havia apesar de tudo e contra todos, na prática surrealista, uma alegria de vida, um prazer de contestar só pelo inédito da contestação que Celan, enredado na sua dôr e na suas memórias não poderia, honestamente, sentir. E a sua voz não era de fingimento, era de puro clamor. 
Em 1952 casa-se com a artista plástica Gisèlle Lestrange; em 1960 é~lhe atribuído o Prémio Georg Buechner da Academia Alemã de Língua e Poesia; em 1964 o Grande Prémio Literário da Renânia do Norte-Westfalia e em  1969 fará uma última viagem a Israel, quem sabe se de interpelação e ajuste final de contas com o Deus  do olhar desviado para longe.
Em 1970 suicida-se no rio Sena.
Entretanto a sua poesia foi sendo cada vez mais divulgada e apreciada:
Em 1983 sai a primeira edição da Obra Completa, em cinco volumes e em 1990 tem início a publicação da Edição Histórico-Crítica, hoje fundamental para o estudo de uma vida e obra que se tornou tão marcante no século XX.
Em tradução portuguesa são conhecidas uma Antologia, Sete Rosas Mais Tarde (J.Barrento e Y. Centeno),  A Morte É Uma Flôr (J. Barrento), e Arte Poética, o Meridiano e outros textos (J.Barrento).
Em iniciativa pioneira, pela mão de José da Cruz Santos, temos a plaquette de treze poemas da colecção “Oiro do Dia”, Paul Celan (Y.Centeno e J.Barrento).

Qual a razão, neste momento, de dar a conhecer os primeiros poemas que o poeta retirou, na intenção de mais tarde os incluir em edições alargadas? Por uma razão muito simples, mas para mim fundamental, neste caso de Celan como no de Pessoa: todo o primeiro impulso é já o prenúncio de um caminho. A voz é seminal, mas da energia que contém nascerá o discurso (poético) seguinte. O poeta viu, viu com os seus olhos, sentiu, sentiu com a sua alma, tem de dar testemunho. 
As letras que, uma por uma, com o seu som que é Sopro, é Verbo, na mística da Kabala, vão dando origem ao universo criado, foram perversamente desviadas da pureza inicial. 
E Celan, neste seu reinício fundador, procurará, despojadamente, dolorosamente, reconstituir fragmentos, articular numa linguagem própria, próxima do sonho ( não do sono, que o poeta perderá para sempre) a memória - corpo de uma nação que foi propositadamente desmembrada, por uns e por outros.
Não é por acaso que haverá um conjunto de poemas e depois um livro intitulado Papoila e Memória. Nada na obra de Celan é fruto de acaso: a voz surge de dentro, de uma pulsão mais forte, que impede o silêncio que seria tão do agrado de alguns.
Deus esqueceu  o alfabeto primordial, a sua criação, a sua criatura?
Pois o poeta, insubmisso, evocará os momentos, reunirá as ossadas, espalhará as cinzas e encherá com a sua voz o cântaro, o cântico eterno que faltava: o que é da Vida.

N.T: para estas versões utilizei a edição de Barbara Wiedemann, Paul Celan, Die Gedichte, ( Kommentierte Gesamtausgabe) 2005. 

Y.K.Centeno
Lisboa, 2012-2014-2015

Do Lado de Lá /Drueben

Só para lá dos castanheiros está o mundo.

De lá sopra à noite um vento trazido pelas nuvens
e que por aqui algures vai ficando…
é ele que o transporta, por sobre os castanheiros:
“ tenho a doçura dos Anjos, e um dedal vermelho!
só para lá dos castanheiros está o mundo…”

É então que eu canto, baixinho, como fazem os grilos,
é então que o agarro, o impeço de fugir:
o meu apelo prende-lhe as articulações! 
Oiço o vento que regressa em inúmeras noites:
“ comigo ardem os longes, contigo o apertado…”
Eu então canto baixinho, como fazem os grilos.

Mas se hoje a noite não se iluminar
e o vento voltar trazido pelas nuvens:
“ tenho a doçura dos Anjos, e um dedal vermelho!”
e se ele quiser passar para lá dos castanheiros -
 então eu, então eu não o prenderei aqui…


Só para lá dos castanheiros está o mundo.



 A Posse dos Sonhos /Traumbesitz

Coloca então as folhas junto às almas.
Roda lentamente o martelo e cobre o rosto.
Coroa, com as pancadas que faltam ao coração,
o cavaleiro que luta com moínhos longínquos.

São apenas nuvens, que ele não suportou.
Contudo o seu coração bate ao passar de um Anjo.
Faço grinaldas com os restos que ele não despedaçou:
a barreira vermelha e o negro meio.



 Canção de Embalar / Schlaflied

Bem longe, para lá dos campos mais sinistros
ergue-me a minha estrela ao teu sangue exaltado.
 Não mais duvida  da dôr de que sofremos ambos,
aquele que, ligeiro, repousa no anoitecer.

Como pode ele, querida, deitar-te e embalar-te,
com a sua alma a coroar o teu adormecer?
Jamais se ouviu, onde repousam os sonhos 
e os amantes, um silêncio a cantar tão estranhamente.

Agora, que só o pestanejar rodeia as horas,
se torna manifesta a vida da escuridão.
Fecha, amada, os olhos que brilham.
Que não haja mundo além da tua boca cintilante.