Sunday, October 19, 2014


ORHAN PAMUK
The Black Book, em nova tradução inglesa, de Maureen Freely.
Não há contraste maior, ler Pamuk a seguir a qualquer outro livro,  produto da nossa cultura europeia, ocidental. O nosso olhar lúcido, rápido, ao mesmo tempo próximo e distante, como acontece agora, no momento em que escrevo e posso seguir na televisão os progressos da guerra nas fronteiras da Turquia, os horrores do Ébola, a adiada condenação de Oskar Pistorius que matou a namorada, que fugia dele e se fechou na casa de banho para desgraça sua ( e dele?)-
Abro o livro de Pamuk e sou desde as primeiras linhas enredada num mundo que é todo seu, vejo pelos olhos dele, sinto e penso pela sua cabeça e coração. O alter-ego que surge na narrativa, debruçando-se sobre o corpo semi-adormecido ainda da mulher que ama já é, ao mesmo tempo, ele e outro. Um outro que será objecto da sua inquirição, com o qual se identifica por vezes plenamente, perdendo-se nele sem saber afinal quem é, se ainda é ele mesmo ou já definitivamente o outro que persegue.
Assim, na sua prosa de filigrana delicada, caminhamos, como caminhávamos com Proust (que ele cita) em direcção a um tempo perdido. 
Mas não totalmente perdido, antes recuperado pela constante intromissão numa narrativa que oscila e envolve, evoca e recorda como se ali mesmo no instante narrado estive diante de nós a acontecer. A tradutora chama a atenção, no posfácio, a uma particularidade da língua turca (que eu desconhecia e explica  muita coisa): não existem nesta língua nem o verbo ser nem o verbo ter. O que naturalmente levanta ao tradutor, e mesmo ao leitor, dificuldades acrescidas de entendimento aprofundado para encontrar o sentido verdadeiro, que pode ficar perdido entre palavras (lost in translation, como no filme..). 
Se na poesia algum mistério até pode ser mais sedutor, na prosa a decisão não é fácil! Mas esta tradução foi feita a duas mãos, por assim dizer e podemos ficar seguros de que é tão fiel quanto o autor desejou e a tradutora conseguiu.
Apesar de uma primeira ironia sobre as epígrafes, não devem usar-se porque estragam o mistério do que se vai seguir (Adli) no capítulo I, Pamuk abre cada capítulo com uma epígrafe, ora de autor antigo ora moderno - cita Proust e percebe-se que Pamuk é um escritor cuja narrativa tem muito de proustiano no envolvimento permanente com o tempo, ora passado, ora presente, ora entre um e outro - e cita também, já no capítulo 19, Lewis Carroll, Alice in Wonderland (obra que eu própria não me canso de ler e reler, revela um pensamento quântico inesgotável...) aquele momento em que Alice se interroga:
"Was I the same when I got up this morning? I almost think I can remember I was feeling a little different. But if I am not the same, the next question is 'Who who in the world am I ?' ".
Ora esta é a interrogação permanente que se traduz nas intermináveis descrições, minuciosas até â exaustão, do nosso narrador, cuja mulher desapareceu, isto é, saiu sem lhe dizer nada e não voltou, e que ele suspeita que possa ter fugido com um colunista que ele lia todos os dias, com admiração e alguma emulação, ao ponto de se confundir com ele, no que escrevia e quem sabe- esse é o ponto central- e no que vivia.
São um e outro ? São ao fim e ao cabo, o mesmo? no decurso da escrita? - Pamuk lembra que não há nada de mais chocante do que a vida (no capítulo II, epígrafe de Ibn Zerhani) a não ser a escrita.
Por uma razão que iremos acompanhando: na escrita tudo é possível, até o impossível que a vida não concede.
A escrita, única consolação com que termina a útlima página do romance.
Mas voltando ao princípio o narrador, o que salienta, após a descrição do olhar de Galip ainda meio adormecido, sobre o corpo da mulher estendida  a seu lado, a mulher que ama e de quem tem ciúmes, é simplesmente que ele se lembrava que aquele jornalista seu preferido,  Ce|âl, escrevera numa crónica que a memória era um jardim: Memory is a garden,(p-1). Logo Galip aproximou essa imagem da mulher, Ruya, e que esses seria os jardins de Ruya...
Pensar nisso era ser atacado de um ciúme que não conseguia evitar. Pensar nisso reenviava a sua imagem para os tempos felizes da infância em que sendo ambos crianças, ele e Ruya, passeavam de barco, com  as pernas fininhas lado a lado, praticamente idênticas como nessas idades são os corpos indistintos das crianças. Tempo feliz.
Desse tempo tão longínquo datava o seu conhecimento, convívio, aproximação, casamento...e agora havia um colunista Celâl, que Galip idolatrava, não prescindindo de o ler todos os dias, sonhando poder um dia vir a escrever como ele. Celâl que era afinal um outro que se intrometia na relação de homem e mulher que ali tinha sido apontada, no início da narrativa.
A narrative corre depois em torno da ida embora de Ruya, deixando apenas uma nota de despedida, quando em páginas anteriores, e sob uma epígrafe de Rilke, se tinha falado de "família". Sel ela não havia mais família, e a dôr dessa perda ocupará muito do deambular do herói, e da obssessiva inquirição do outro, o tal colunista admirado, emulado, Celâl...
Continuando a ler, apercebemo-nos de que gradualmente o Mistério de que o autor nos vai falando, bebido também nos grandes clássicos da cultura árabe, como as Mil e Uma Noites, ou as muitas lendas e pequenos contos moralizantes da herança turca, é um mistério que ultrapassa as memórias de infância, de Galip e de Ruya, e se desenvolve nas páginas de antigos manuscritos que o seu pseudo-rival, Celal, também teria lido.
Nesses folios antigos, roídos pelo tempo, ou nas páginas da transcrição recente , aí, na leitura, no entrelinhado de um alto pensamento, descobre o autor o peso da palavra, escrita, lida, transcrita, relida, viva - a palavra para sempre viva - que fará dele o que ele é : um escritor, com a paixão da escrita.
Um escritor que transpõe no que escreve o que a memória da sua pátria (sim, ele tem uma pátria cultural, ainda que atravessada por dois lados opostos, como relembra numa das lendas que recupera, da divisão eterna entre os lados do oriente e do ocidente) lhe transmite.
Não é apenas a infância feliz, e cheia de interrogações, é um passado que abre, no presente, as mesmas interrogações (voltávamos a Alice) sobre o valor da história e da memória.
Mas para se chegar à solução final desse Mistério absoluto teremos de concluir, com Galip, todo o caminho feito: um caminho por dentro da memória, por dentro da sua antiga herança, e pela meditação do que aceita ou recusa, o poder afirmar quem é e o que é. Ele é um contador de histórias, na melhor tradição turca, ele é um escritor que reinventa a palavra, na melhor tradição do ocidente. Faz a ponte, entre Celal e Galip, num impulso de androginia cultural assumida.
Uma escrita carregada de sonhos (o passado, o corpo de Ruya a dormir ainda, virada de costas) carregada da inquirição do presente:tudo o mais que sucedeu.





Thursday, October 09, 2014

A MENINA É FILHA DE QUEM?
Rita Ferro, Prémio Pen Club 2012
Entre Pamuk e Rita Ferro...
É verdade que a leitura de um livro puxa outro...
Aconteceu com Orhan Pamuk, quando li RED, a seguir li SNOW e agora espero pelo BLACK BOOK.
Aconteceu com o Diário 1 de Rita Ferro, VENEZA PODE ESPERAR, que me fez andar para trás e comprar A MENINA É FILHA DE QUEM?, livro anterior e se define como autobiografia.
Rita nasceu em 1955: significa que aos vinte anos é apanhada, como tantos da sua geração na onda que só não chegou antes a Portugal por causa da Ditadura de Salazar e com o PREC rebentou pelas rochas (os mais velhos, empedernidos) e areias e lamas das almas do nosso país, com toda uma revolução de costumes que não se esperaria tão rápida, mas foi o que foi. Já sedentos, desde o Maio de 68 de Paris (apesar de tudo viajava-se....) agora podiam, uns e outros, embebedar-se à vontade. Uns de política, outros de paixão. Rita era a mais nova dos três filhos de António Quadros. E pelo que nos diz, a mais irrequieta, a mais disponível para a travessura, no colégio ou no grupo de amigos.
Não falarei aqui do seu pai, do círculo da amigos - também eu estive em casa da Natália Correia, com o David Mourão-Ferreira, a tentar não sorrir daquela apetência de Além, tão pessoana, ou dos serões no Botequim, onde tudo podia acontecer, do piano, do canto e poesia à Revolução. Com Alberto Pimenta, lia-se o Tarot.
Com Mestre Lima de Freitas buscava-se a nova alma, o novo destino de Portugal. Na Nova Filosofia nunca acreditei muito, e a prova está à vista, não produziu os efeitos esperados. Mas respeito o esforço de repensar o país.
Entretanto, uma jovem menina, depois já mulherzinha, corria em busca do seu caminho: espreitando as amigas mais velhas, ou os amigos  mais velhos já tentando cortejar, ela observa, ela aguça os sentidos, ela diverte-se enquanto a vida e as vidas acontecem.
Numa prosa por vezes rasgada - entenda-se realista para além do que seria preciso, por vezes sugerir é mais interessante do que explicitar ao pormenor, o mundo em que cresceu, feito de boa educação (severa, claro, como se devia, ainda que hipócrita tantas vezes) de livros, boa música, poesia pelo meio, algo enfadonha, mas resiste-se e adquire-se sensibilidade, essse mundo chega até nós de modo irónico e irresistível, quando uma avó, por exemplo lhe diz àcerca de uma amiga:" essa não a traga mais, dá dois beijos e diz mala em vez de carteira!" Tão aguda, tão perfeita observação de um mundo que já tinha acabado, pela mão dos próprios, que ainda não se tinham apercebido. Conheci-o bem, e não resisto a sorrir quando a Rita o evoca, rindo também ela, com ternura.
Mas Rita vira chegar o novo mundo, e decidiu vivê-lo, todo e com sofreguidão. As casas que se perdem, se dividem, os casamentos que se fazem e desfazem, as memórias que nos tomam de assalto e sentimos o dever de recontar.
Pelo meio um país que muda: exigente, mas mesquinho, mas ainda invejoso, - como lamentam os "Pensadores" poucos, que temos, e cujo pensamento não ajudou à mudança (Não, não vou citar! ).
O que faz ela? Mulher que se diz bicho, que se diz fêmea, devoradora, que se interpela enquanto caminha e ora sai ora regressa ao que aspirava a ser, o que faz ela? Toma a vida nas mãos e luta: pelo dia-a dia-, por um trabalho que garanta independência e altiva elegância até poder libertar-se e plenamente ousar dizer o que é. Dizer é pouco? Mostrar!
Afinal a vida ensina que se é muito pouco, mas esse pouco é a nossa vida, só mesmo nossa, merecida, bem sucedida, finalmente ganha contra tudo: o que se foi, o que se é, o que se virá ainda a ser. Como em todas as vidas, houve, na sua, o sofrimento, a perda, e o desgosto.
E haverá quem sabe ainda mais.
Mas a graça com que intercala situações caricatas e divertidas com outras discretas e penosas - aquelas que se calam (Rita tem desde logo a noção de que falar nada adiantaria) - são a chave do ímpeto com que se lê esta biografia, que foi o ponto zero do Diário de Veneza.
Aqui está tudo ainda em embrião, pois a menina - sendo ou não sendo filha de quem era, carregada dos genes de uma família de criadores - podia nunca chegar a ser o que é:jovem irreverente, mulher ávida e ao mesmo tempo mãe de família, que colocou a família no centro enquanto a loucura da escrita a empurra e possui, como possessa que é da necessidade absoluta da Palavra.
Não farei aqui nenhum resumo, seria ofensivo para quem a deseje ler.
Mas leiam, porque se aprende, como ela aprendeu, e nós com ela, também a desaprender!





Tuesday, September 16, 2014

Rita Ferro, Veneza Pode Esperar (ed. LeYa, 2013)
Trata-se de um Diário: Diário I, vem na capa.
Há muito tempo que eu andava à procura de um livro que me absorvesse por completo, que me fizesse ler sem conseguir parar, puro prazer de ler e de seguir em frente. Preciso de distracção, mas distracção com boa escrita é a única que suporto. Não consigo ler má literatura. Ora acontece que o livro que abri não é de distracção, é um livro excelente, tanto do ponto de vista  do que se entenda por diário como de boa literatura (valha o termo o que valer....) ou mesmo de literatura para consumo ligeiro.
Não o li todo num dia,  mas li-o todo em dois dias. E sempre de seguida, sem aborrecimento em momento algum, encontrando, para além da escrita rápida, descomplexada e segura - seguríssima nas escolhas, nas entradas dos dias e das datas ( o que também informa sobre os tempos e ritmos da autora) nos comentários à parte, nas interrupções do quotidiano (um escritor tem um quotidiano...), nos pormenores só aparentemente dispensáveis, (nada ali do que vai escrito é dispensável, a todos nos toca, na nossa humanidade, naquilo que simplesmente somos (ou não) em cada situação, homens e mulheres de qualquer idade todos ali nos revemos ).
Claro, tenho consciência de que para além do espírito (wit sem ofensa para quem não distinga a subtileza do inglês) da autora, seu génio, sua ironia, perversa ou sincera, será mais fácil para alguém da minha idade, 74 anos, que atravessou o salazarismo e conheceu bem os méritos de António Ferro, o SNI e Amália antes de promovida a deusa ímpar, a tentativa de trazer para Portugal os grandes do Pen Internacional (algo que pouco se refere)a poesia e o carácter de Fernanda de Castro, a quem o José Carlos Ary dos Santos chamava a tia Fernanda - enfim esta sociedade a que me refiro e Rita Ferro tão bem descreve, de pena ligeira, ali está toda no seu diário e para quem não tenha hoje idade de saber a memória é útil, além de ter sido boa para quem a viveu: boas famílias, de boas casas ( alguma de aristocracia antiga e firmada, outra mais recente, mas com a aristocracia, que também o era, das fortunas grandes e estáveis).
Segue-se a fase seguinte, a de uma nova estrutura social que chega aos sopetões (gostamos de dizer sem sangue, mas houve grandes sofrimentos) e altera sobretudo comportamentos sociais e religiosos (em grande parte já o eram pouco); Rita conta como casou e descasou três vezes, como as heranças com as mortes na família se foram desfazendo, como viveu à mesma, ora mais feliz ora menos, foi sendo mãe como hoje é avó (aqui entra essa empatia humana que a aproxima de qualquer de nós): contudo não se perde nunca o que ainda hoje é verdade indiscutível, a esfera a que se pertence, de berço nascido, deixa marca indelével, e é bom, diria mesmo que é óptimo, que assim seja. Rita Ferro não renega os seus, não se renega a si mesma, como em alguns diários de grandes autores que não vou citar, vi acontecer. Há diferença entre arte e carácter e confesso que nesta leitura me senti atraída por ambas as qualidades, a da escrita e a do carácter. E como num post a dimensão tem de ser reduzida, abordo então a última  das três fases que nas descrições do diário se descobre: a da actualidade, que no caso da Rita é a dos filhos, e ela tão bem deixa entender quando fala da surpresa da separação do seu filho mais velho.
É que havia 3 sociedades num Portugal que foi evoluindo aos sacões: o do Antigamente (e ali estão os avós) o do célebre PREC do 25 de Abril ( e ali está ela com os seus pais) e o do neo-post-25 de Abril, ou da União Europeia?(e aqui está ela com filhos e já com netos: como qualquer de nós, avós, também se ocupa deles quando os filhos precisam).
Num aparentemente simples diário, Rita, que ironicamente no título adia o passeio a uma Veneza sonhada (mas não sonhámos todos com Veneza, a dada altura? Wagner, Thomas Mann, outros, de Veneza viveram e de Veneza morreram....) - Rita faz-nos atravessar três momentos de um Portugal cujas "esferas" sociais entraram em mudança, para uns melhor, outros pior, -para todos diferente, como a vida.
E agora eu iria, na companhia de Jung, à substância mais oculta de uma vida que se expõe. Na idade em que está a autora, está no que Jung chamou de "meio da vida" - o que acontece por volta dos 50 anos. E é nesse meio da vida, nesse momento especial em que a pessoa, homem ou mulher, deixa de ser uma Alice caindo pelo poço, esse momento tão especial, é aqui vivido com plena interrogação, defrontando um real - mais do que uma realidade (essa é o quotidiano, segue sempre) em que se aguarda uma revelação que seja entendimento, o da plenitude do Ser.
Se ao longo das páginas se ironizou sem lágrimas pífias, sobre o Ter que se perde, eis que alternando com elas se vê ir chegando  o momento de reflectir sobre o Ser que se tem, o ser que se é.
Apercebo-me de que até ler dois terços do livro o que mais me chamava a atenção era o modo como a autora nos trazia as três variedades de um Portugal social em modificação, ora para o melhor ora para o pior, mas também ultrapassado com a força de uma bonomia muito nossa. Chegada ao fim da leitura descubro algo mais e não menos importante: como a autora, na sua qualidade de portuguesa, que não esconde, antes se orgulha dela, nos oferece do mesmo modo, liberto e dadivoso, os três pilares do que foi e é a sua vida, de mulher, de mãe, de avó. Pilares de um edifício tão português, tão nosso, que é o edifício da Família, aqui por ela glorificado, quem sabe sem dar por isso?
 Difícil dizer mais.
Aguardo a continuação, se houver. Mas se não houver, para mim aqui tudo ficou dito, contido como  num ovo. Só Rilke, nos célebres Cadernos de Malte Laurids Brigge me entusiasmou tanto a ler.




Monday, August 25, 2014

DE ALBERTO RIOGRANDE, um livro de contos,
A Mulher Vestida de Sol, 2014

No Prefácio de Rui Machado é feito um apontamento cuidadoso sobre a escolha geral dos temas (personagens) e a sua circunstância, real ou ficcionada.
A estruturação da narrativa, transversal a um tempo ora presente ora passado, recuperado para que o decurso irregular, por vezes feliz a mais das vezes doloroso,  possa avançar é para mim a qualidade maior desta obra.
A estrutura é liberta, e liberta igualmente o leitor, que pode escolher demorar-se a reflectir nesta ou naquela situação oferecida. Estamos perante um conjunto de contos em que se chama a atenção para aspectos diria, sem ofensa, menos modernos, mas muito actuais e fora da onda dos sucessos de vendas que nos consomem, a nós que gostamos de ler com lentidão e sossego.
Há coincidências curiosas, e nesta mesma semana encontrei nas livrarias o livro póstumo de António Tabucchi, dedicado a uma Isabel que o narrador busca de capítulo em capítulo, alguém de um outro seu tempo, e que nos é trazido pela mão da Maria José Lancastre, erudita pessoana, sua companheira de sempre, na obra e nas traduções que em conjunto fizeram.
Ah, que saudade e que prazer, esta minha agora leitura lenta...Também no livro de Tabucchi, em estrutura mandálica, é a estrutura que me atrai e me faz, a momentos, ponderar:
O escritor, da caneta na mão, suspende o gesto, aguarda, até que sinta que pode seguir em frente. Tranquilo, segue. Nuns será círculo a círculo, noutros côr a côr, noutros ainda hexagrama a hexagrama, ou como no jovem que descobri recentemente, Leonardo Chioda, carta de Tarot a carta de Tarot..
Em todos a escrita é iniciação - e se não é, melhor seria não escreverem!
Em Rio Grande, para além de referências culturais próprias da sua formação e que me agradam, mas não reside nisso a qualidade da prosa, encontro o gosto do detalhe, a minúcia do olhar atento ao meio que o rodeia, a situação inicial, a paisagem, os corpos que se encontram, desejam, desencontram ou voltam a encontrar-se, fundindo-se, como diz num desses contos.
Cada vida na via que foi dada.
Por qualquer razão que não vou aprofundar, foi assim , assim direi, recuei a Coimbra, aos meus tempos de jovem estudante, em que lia Fernando Namora, amigo do meu pai, médico e escritor. A sua prosa era feita da vida que se vivia. E a outra obra de prosa igualmente directa, expurgada de inutilidades, a de Miguel Torga, também ele médico e amigo do meu pai.
Eu lia também autores muito diferentes: Jacques Prévert, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa (Ricardo Reis).
Habituei-me à variedade.
Hoje em dia a liberdade, na variedade, é total: da maior objectividade ao maior sentimentalismo, tudo é permitido, desde que em prosa escorreita.
Não farei aqui citações, pois o importante é chamar a atenção para a existência (resistência) do livro. Reparo que se em Tabucchi o desejo de contar e encantar é feito de expressa recusa, pois claramente diz, "não direi", em Riogrande a intenção é outra: é dizer, "expressamente dizer" talvez mesmo explicitamente dizer, a razão ou sentimento do que move os seus intervenientes. 
Outros tempos, este nosso em que ser explícito é quase necessidade, como se se tivesse perdido o que só no mistério se intui...e a cada momento o autor tenha de fazer como o velho Proust e procurar algures na sua escrita o seu Tempo Perdido.
Em cada conto de A Mulher Vestida de Sol poderá o leitor encontrar o seu espaço, mais urbano, ou mais poético e romântico, a variedade é aqui uma das qualidades da Obra.
Certamente outras se seguirão...





Saturday, July 26, 2014


Leonardo Chioda
Tempestardes, 2014

Este é um mês de tempestades e de descobertas.
O que me faz dizer que nunca é tarde - como em Tempestardes - para esperar por um bom livro, que nos apeteça e nos desperte uma vez mais e sempre para o enorme gozo da leitura.
O autor, Leonardo Chioda, é jovem e muito conhecedor da literatura portuguesa contemporânea, Herberto Helder destacado de longe, numa aprendizagem do desmanchar e do fundir imagens e palavras que renovam e fazem voar o verso.
Mas há outros poetas da nossa modernidade, passando por aqui, como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Gabriela Llansol, Ana Luísa Amaral, Teresa Horta que abre em epígrafe o início, da "víscera da musa", com o seu belo verso:
Vem tempestade
vem luz
de alumiar o destino
...
Belo começo, que alumia o livro à nossa frente.
Antecedido por um prefácio que elucida o caminho, os estudos, as viagens por paisagens reais e literárias, da autoria de Ana Maria Domingues de Oliveira, Professora da UNESP, onde ensina literatura, vemos mais uma vez como é importante a relação que se pode (deve) estabelecer ente quem ensina, amando o que ensina, e quem aprende, pois aprender é o início de todos os inícios e será o fim de todos os fins que se consigam.
Leonardo Chioda faz parte desta geração a que já aludi, com Andrei Sen-Senkov e Sveta Dorosheva: jovens, viajados, lidos, cultos acima da média, e tendo por isso uma capacidade de criação original, diversa e muito diferente do que se descobre nas estantes das livrarias. O seu Verbo é atrevido, constrói e desconstrói, suga imagens em verdadeiras cartas de destino, ou segue indiferente por trilhos que outros abandonaram: perigosos por vezes, carregados de sombras e de  mitos, sabendo no entanto que os mitos são o que são, projecções que só cada um saberá entender. O poeta é e será sempre, mesmo ao comunicar o seu verso, um Ente solitário.
Andrei, que é médico, exerce a sua profissão numa Rússia problemática, alarga o verso ao espaço da comunidade e às feridas que cose. Encontrei-o no Facebook, que parece, neste mês de Julho, o espaço dos encontros para mim mais felizes.
Foi também por aqui que nos encontrámos, Leonardo e eu,via Facebook,  por muito que não se goste: porque o FB, se proporciona inusitados encontros, também revela frequentemente a vacuidade das horas e do tempo (leia-se das cabeças !).
Mas neste caso o encontro, bafejado pelas estrelas ? Foi o melhor que me podia suceder. Eu ia reler Machado de Assis, Dom Casmurro, essa obra-prima, um clássico dos clássicos, pensando que não teria, nas férias, autores que me agradassem.
E eis que finalmente chega, pelo correio, o volume das Tempestardes...
Amo a poesia e amo todos os poetas que escrevem, como se fosse respiração natural, a sua poesia.
Porque no poema se desvendam almas e destinos - o destino poético é de todos os caminhos o maior...e as almas precisam dele.
Rosne Carneiro, poeta, alumia as palavras iniciais, que deseja iniciáticas. E Ana Maria, que já referi, enquadra o bom caminho.

Entrando pelas palavras dentro, e sabendo-se que Leonardo é tarólogo, fui visitar o seu blog Café -Tarot, e estudou literatura, e entre outros  que cita vemos um G.Bachelard,  a par de uma peça de Versace - e outros exemplos do género, concluímos que o olhar deste poeta é abrangente, que tudo o que rodeia é ou pode ser momento ou fonte de inspiração: Andrei cose feridas, Leonardo entretece destinos, do Verbo ou das mais humildes palavras.
Porque nele veremos que tudo é Um, como se diz na hermética Tábua de Esmeralda que certamente leu, ainda que em partes.
Na mágica fortaleza da Alhambra, a que se refere (p.23) não evoca o último Abencerragem, seu destino, mas segue e aligeira:
(o destino 
é uma menina

ou um monstro
ao dobrar da esquina)

destino caminha feito tigre
... 
Para concluir que o destino é poesia.
O seu vocabulário alimenta-se de todos os vocábulos, das ciências literárias às ciências naturais, à botânica,  ou pura e simplesmente brinca porque o som lhe pede que o faça, alargando o sentido:
vai pelos confins do texto
no sentido litoral da palavra
(p.33)

Somatórios de acaso (mas serão apenas de acaso, ou imagens recuperadas do fixo acordar do sonho, ou da carta tirada?):
contorna o atalho da palavra
de índole harpa
na rota clepsidra
semelhante ao regresso espelho

desvela o símbolo,
...
a anulação dos verbos, dos adjectivos, deixando flutuar a palavra, a harpa, a clepsidra, o espelho - no espaço azul do símbolo - remete para segredos mais íntimos. Terá de ser o leitor a decifrar.
Ou medita, ou repete, ou deixa de parte até novo momento, e aí, como no Éden antigo, descobrirá " os frutos assombrosos".
Podíamos seguir os títulos: Sísifo, por ex.(p.35).
Abre com um "infinito" e segue por um encadeado de rimas internas, todas em i, que apanham o leitor desprevenido, pois de tal alusão ao mito de um Sísifo de cruel castigo se esperaria, quem sabe algum sabor mais trágico...pois não, e habituem-se...o poeta despe os seus mitos, como despe as suas palavras, os seus versos, até ao acaso, ocaso da linguagem!
Estamos perante uma obra em que se
desconfigura
a órbita dos mandalas
a palavra é vertical...
(p.110)
E o verso pode ser ainda mais, ser animal, como quando nos lança em desafio a utilização do verbo "panterar".
Caeiro gostava de pastorear o seu rebanho, o seu rebanho eram as suas ideias; ideia de árvore, mais do que o sentimento do que esta ou aquela árvore despertasse nele. Já Leonardo Chioda anda a "panterar", com os seus versos, todos os seus sentimentos, todas as suas sensações, de cada momento.
Não abstrai, concretiza, funde, devora...é outra modernidade a sua...
Termino, não sem antes sugerir que se leia, já no fim, SOBRE A ESPERA (Llansol revisitada), na página 130.
Não cabe aludir a tudo, num post. Mas cabe uma alusão, que alimentará estas e outras ilusões de que a poesia pode ainda salvar o nosso mundo.







Friday, July 11, 2014




Crianças entre Ruínas

Há um muro 
que as separa.

Com sede
quem lhes levará
a água?

Com fome
quem lhes levará
o pão?

Com sono
quem poderá
num enxergão desfeito
dar o último beijo, 
o último aconchego?

Perguntam
querem saber:

Quem 
lhes devolverá 
a vida
ainda tão pequena
e tão cheia de medo?

(Julho 2014)

Thursday, July 03, 2014





A criança de Gaza

O que faz
a criança de Gaza:

a criança de Gaza
corre na rua
foge de casa
a casa
foi destruída

Onde brinca 
a criança de Gaza

a criança de Gaza
brinca na cave escura
escondida
atrás das pedras

Como vive
a criança de Gaza

a criança 
vive com medo
o medo é 
o seu companheiro

e uma ou outra vez
ajoelha-se 
e reza
a um deus
que já não é
inteiro

(Julho, 2014)