Monday, February 01, 2016

Mais rosas

Falemos de Le Roman de la Rose, obra bem conhecida, súmula das práticas místicas e simbólicas do amor cortês, na França do século XIII.
Guillaume de Lorris (c.1230) e Jean de Meun (c.1275) são os autores, descrevendo em sucessivas alegorias o percurso aventuroso de um cavaleiro que é conduzido em sonhos a um Jardim paradisíaco e aí se deixa enebriar pelo perfume dos roseirais e de uma rosa em especial. Guillaume começa, escrevendo entre 1225 e 1230, e Jean continua e termina, entre 1269 e 1278. A este último se deve a amplificação do sentido das alegorias a uma reflexão mais profunda sobre a Natureza e a Condição Humana (aperfeiçoamento constante para atingir uma Plenitude de que a Rosa vermelha será o arquétipo central).
Por ela, por não desistir de colher esse precioso botão, será o coração do herói perfurado pelas flechas que Amor, ciumento, lhe crava no coração, até que obtém da sua parte uma jura de fidelidade eterna.
Considerado a par da Divina Comédia de Dante, numa Paris que no século seguinte já é centro de doutrinas e disputas teologoais, filosóficas, científicas e literárias - chama-se a Paris rosa mundi - rosa do mundo, com tudo o que isso implica de beleza, de certeza, de paixão, o Romance da Rosa adquire um estatuto que ainda no século XVII persiste entre os estudiosos, apesar de Boileau e Descartes introduzirem um pensamento novo, no tocante à filosofia e à escrita (ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement, regra que colide frontalmente com o exercício prazenteiro de uma narrativa mítica e simbólica, por vezes obscura, como na meia-luz dos sonhos).
Lorris e Meun antecipam Freud e Jung, ou alguns dos românticos alemães, ao valorizar a mensagem contida nos sonhos, de que dizem que, se não é logo entendida, mais tarde se verifica quão verdadeira se torna.
Muito do simbolismo do Romance pode ser colocado a par dos mistérios antigos, como o do Burro de Ouro, que Marie-Louise von Franz tão bem nos descreveu.
 Nesta obra de Apuleio, do século II da era cristã, acompanhamos as vicissitudes de um herói, Lucius, que uma vez iniciado nos ritos de Isis será redimido da sua forma de Burro ( com que foi castigado por tentar práticas de magia). É num sonho que a rainha dos céus (Isis) lhe aparece e lhe diz que terá de comer uma coroa de rosas que no dia seguinte, num determinado cortejo ritual, lhe será oferecida. Assim acontece, e ei-lo feito sacerdote de Isis e Osiris, para sua redenção.
Temos ainda de nos lembrar que os século XIV e XV são na Europa os expoentes das Novelas de Cavalaria, e que as normas do "Serviço" à Dama são as mesmas, ou quase sempre, as que se foram buscar ao Romance da Rosa e aos seus códigos de virtude e moral.
Temos em Dante o exemplo de Beatriz dizendo ao amado que se afaste, pois não está ainda devidamente "purificado". Só mesmo diante da Rosa Centro do mundo e termo da viagem, poderão unir-se. Não um ao outro, mas ambos a ela, na Rosa que contemplam.

Recordo aqui que já existiam na França do século XII, como até em Portugal, nos cancioneiros primitivos, obras como Le Coeur Mangé, dos séc. XII e XIII, contendo narrativas de tom erótico e cortêz, em que o olhar duro e directo sobre os costumes (bons e maus) da sociedade são apresentados em textos de lendas, fantasias, mistérios e monstruosidades que projectam, como diz Claude Gaignebet no seu prefácio (ver edição em francês moderno por Danielle Régnier-Bohler, Stock+plus,1979), o imaginário sexual e amoroso do tempo.
Mas tal não impediu que outros autores se esmerassem na sublimação dos seus desejos e emoções.
Temos pois a Rosa, temos o Coração, - a Alma, na verdade, termo que ainda não utilizei, a Psique e as suas pulsões mais fundas: o desejo de ser, o desejo de ser-para-o-outro (para poder ser para si mesmo) como justificação plena e matriz da existência.
Quando li pela primeira vez o Romance da Rosa, há muitos anos, achei-o confuso e difícil de chegar ao fim. Nem me lembro se cheguei ou não fim, o que me teria feito perder um dos momentos mais significativos, no tocante ao conhecimento dos processos e dos símbolos alquímicos, pelso quais eu já me interessava.
Na verdade este Romance é uma obra complexa, estruturada em vários níveis e tem de ser lida de um modo que os separe e distinga, para que se entendam em cada momento.
A lógica da narração não é a da coerência, da evidência, nos processos usados. A lógica é a do sonho, que funciona por acumulação inesperada de situações, conforme cada qual vai surgindo.Uma vez aceite este princípio, poderemos, na nossa leitura, entender melhor e desfiar os acontecimentos. Num primeiro nível temos uma espécie de iniciação(daí que o autor se demore na existência e descrição da importância do seu sonho); a revelação que o sonho iniciático permite é da descoberta de um jardim paradisíaco, onde flores, pássaros, animais vários recriam um ambiente de quase lirismo pastoril. A diferença, em relação ao que poderia ser mera descrição, como tantas, é que o autor entretece, pelo meio, um conjunto de alegorias, de vícios e virtudes, com os nomes adequados a cada uma dessas personagens que se tornam intervenientes e construtoras da trama da narrativa. Desse modo define um código de comportamento que é o do cavaleiro cortês.
E segue a aventura, e seguem as peripécias, sem que ele perca de vista o supremo objecto do seu amor e da sua Quête, a rosa perfeita vislumbrada no jardim.
Temos pois, num primeiro nível de leitura, a importância do (desregramento) da lógica do sonho, imperativa a seu modo e profética na sua consequência, imediata ou tardia.
Temos, de seguida, a apresentação, pela via alegórica das normas e procedimentos de códigos de conduta de uma aristocracia cavalheiresca.
E sempre a perseguição dessa rosa imutável e cada vez mais distante.No capítulo XIV, já da autoria de Jean de Meun, fala-se então da alquimia, como arte da transmutação.
Descreve-se a Fénix, a ave que renasce das próprias cinzas, como exemplo da perenidade das espécies, de que a NATUREZA se ocupa, na su forja da Vida; referem-se o enxofre e o mercúrio - para o trabalho dos metais (a sua transmutação); no capítulo XV transita-se para a visão do cosmos, que é, como a de Dante, o cosmos ptolomaico, mas com outra inovação trazida ao pensamento: a do livre-arbítrio, que na astrologia podia ser contrariado, contrariando a doutrina cristã.
A questão ou os vários questionamentos de doutrinas teológicas ou filosóficas abundam, fornecendo mais um último nível de leitura e reflexão.
É sempre, nestes últimos capítulos, a Natureza que expõe o seu pensamento, introduz lendas e mitos, considerações sobre os diferentes estratos sociais e suas obrigações (como no capítulo XVII) -distinguindo nobreza de nascimento e nobreza de coração, ou no cap. XVIII a descrição da Fonte de Vida (sabemos que é, na Arte da alquimia, a fonte do Saber Supremo).
A caminho do sucesso final, Vénus reaparece, o Amor, a chama da Natureza, que a alimenta e perpetua, permitirá que o Amante lutador e fidelíssimo colha então a sua Rosa. Nasce o dia e o narrador desperta do seu sonho.
Veja-se: o Romance começa com a narrativa de um sonho, por Guillaume de Lorris, aos seus vinte anos, e que ele se "obriga" a contar, por imposição do AMOR:
 "c'est Amour qui m'en prie et me l'ordonne. Et si quelqu'un me demande comment je veux que ce récit soit intitulé, je répondrai que c'est le Roman de la Rose qui renferme tout l'Art d'amour". 
E o mesmo Romance termina pela mão de Jean de Meun quando, colhida a rosa da maturidade que se adquiriu (j'eus la rose vermeille) o dia nasce e o herói acorda.
A nós, agora de reler para entender...como nos dita o Liber Mutus:
ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies.








Friday, January 29, 2016

Volto às Rosas de Rilke, regressando a Dante e ao Paraíso...

Falar de rosas...

 Gosto de rosas.
Sonho com tantas coisas, mas que me lembre nunca sonhei com rosas, nem escrevi nada em que alguma rosa entrasse, a não ser nas célebres gravuras alquímicas de que me ocupei outrora.
Mas leio, leio rosas, neste ou naquele autor, geralmente são poetas, como Rilke ou Pessoa, e há sempre na imagem dessas rosas que leio uma essência mais forte, que as sustenta, lhes confere uma parte desafiadora de mistério.
Por um lado tão frágil ( ou será apenas na aparência? ) e por outro tão forte, tão centrada em si mesma.
Rosas de Verão, rosas de Inverno, rosas de todo o tempo. Será a sua forma redonda figuração do Tempo, como insinua Rilke?

Eram brancas, as rosas, antes da morte de Adónis, que as tingiu com o seu sangue.
Daí o vermelho-morte, daí o vermelho-vida...
A rosa sacrificial.
As pétalas que envolvem, os espinhos que ferem e que matam.

Vejo na rua dois velhos, com os seus sacos de compras.
Vão devagar, ela à frente com dois sacos, parecem mais pesados, ele atrás, só com um e arrastando os pés.
Levam o pão que ninguém lhes daria, como ninguém ajuda com os sacos...
Está sol, e o calor é benção para aqueles ossos ressequidos...
Vão de cabeça baixa, olhos fixos no passeio, por causa de algum buraco. Cair seria terrível, não poderiam levantar-se!
Mas falava eu de rosas.
As vermelhas de Rilke, as fechadas em si mesmas, como se fecham as vidas.
Num tratado de alquimia li outrora: a rosa dá o mel às abelhas.
As abelhas seriam, no tratado, os alquimistas afanosos em busca do mel da vida, do ouro que não fenece...
Passa a vida à nossa frente, como os velhos ali, que estou a ver como passam, e sei que não é verdade. Não há ouro disponível.
Em que momento perdemos a razão, somos e seremos condenados?

Fernando Pessoa que, diante do rio, se interrogava sobre quem era e o que era ser-se rio e correr, e estar, como ele ali estava, a ver imóvel essa corrente de consciência e de vida, lera os poemas de Rilke.
E acreditara, se calhar, que a morte daquele poeta se devera à picada de uma rosa, que lentamente o matara.
Na verdade morreu de lenta leucemia, mas lenda é lenda.
É assim que Ricardo Reis, heterónimo de Pessoa, aristocrata no distanciamento de tudo o que fosse sentimento - amor ou vida - retoma o mito de Adónis para evocar o tempo, no poema de Lídia:

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
o seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos

Sabedoria e recusa.
Adiante, noutro poema, dirá, como bom alquimista:
 "A obra cansa, o ouro não é nosso".
Podia ser o Mefisto de Goethe, autor que também leu, (como parece, pela sua biblioteca, ter lido sempre muito, ter lido tudo).
Pessoa sofre do cansaço de um universo que não consegue ou nem mesmo pretende decifrar, enquanto Rilke, em pura contemplação, se funde com o mistério da rosa: eterna redonda, e mesmo quando se abre permanecendo fechada, na sua perfeita circularidade de camadas e camadas de pétalas perfeitas.
Renúncia, é o que vamos lendo na poesia de Pessoa/ Ricardo Reis.
Excesso e abundância, nos poemas de Rilke:
Uma só rosa, é todas
as rosas (6)
Ou ainda:
Tenho uma tal consciência
do teu ser, rosa completa,
que o meu consentimento
te confunde
com o meu coração em festa.
(XI)

Não há festa no coração de Ricardo Reis, há bruma, há nevoeiro, e o apelo a Caronte a quem deseja depressa entregar o custo da passagem: nem se interessa tanto por chegar, apenas por esquecer, e para isso lhe serve o rio da memória, o Lethes...

Que posso ver na rosa que outros não tenham visto?
A beleza já foi por demais cantada.
A Unidade? A Multiplicidade, desdobramento de pétalas e pétalas?
O Efémero que o desfolhar logo prenuncia, como a vida, que passa tão depressa?

No coração da rosa, o olho do furacão.
O ninho em que se formam estrelas.
É de estrelas, não de rosas, que devemos falar...
Do rodopio que ilude, que tudo arrasta consigo, numa torrente de negro, com nome por designar.

Dizer apenas rosa não adianta nada:
a rose is a rose is a rose
is a rose...

Mas penso em Dante, na Divina Comédia; que Rilke e Pessoa leram, e que eu deveria ler (reler) no Canto XXXII, onde no centro está a rosa, que é a Virgem, e se fundem, no brilho, o sol e as outras tantas estrelas, como pétalas, derramando sobre a Amada o seu brilho perpétuo.  

Não duvido que Rilke tenha lido Dante, e através do seu percurso mais íntimo e secreto, caminhado para a doutrina que ali se esconde, entre as referências clássicas e as bíblicas, uma nova doutrina do Amor.
VITA NOVA foi a obra tardiamente descoberta no século XIX, de tal modo grande fora o impacto da Divina Comédia.
Como sublinha o tradutor francês Louis-Paul Guigues (ed. Gallimard, 1974) é com esta obra que a "introspecção surge na poesia": estamos a falar do ano em que Dante a começa, em finais do século XIII, uma época de grande misticismo, na Europa do norte (recordo Hildegarda de Bingen) como do sul, (a mística sufi de Ibn Arabi e outros). Mas é também a época das grandes questões e questionamentos teologais e tentativas de racionalização das respostas a dar. Dante não podia viver à margem de tais questões, e também ele procurou sentir e dizer, viver e explicar.
Vita Nova não pode apenas significar vida nova, sem mais, no sentido de alguma mudança de vida que tenha acontecido ou venha a ser desejada, esperando que aconteça.
Dante não usa o termo vita , mas etate : idade. Como leremos em Joaquim de Flora e seus seguidores, a Idade do Espírito Santo como tempo novo (no Liber Figurarum).
Na Vida Nova de Dante encontramos, no capítulo XXIII, a seguinte referência:
"dama compassiva e de idade nova".
Poderemos ler jovem? jovem de idade?
Beatriz no Canto XXX do Purgatório exclama, referindo--se ao poeta:
"Eis o que ele era na sua juventude".
Como quem já anuncia as grandes mudanças que hão-de vir e só o amor consente.
Primeiro pelo sofrimento, com a morte de Beatriz:
 "uma inteligência nova que o Amor
chorando lhe concede" (soneto XXV)

Percebe-se que, com Beatriz, e seu amor por ela, uma tranformação - uma Vida Nova terá em breve lugar. Beatriz virá do céu à terra revelar o milagre.
Dante escreve os primeiros sonetos cerca de1283, usando os mesmos modelos da poesia cortês da época. Seguindo esses modelos, que não inova, pois já na poesia Provençal a nobreza do amor colocava os amados acima da nobreza de título.
Dante sabe dissertar sobre o amor, como escreve o seu tradutor francês (p.11).
Por volta de 1170, André le Chapelain, autor de DE amore era lido em Florença e apreciado pelo seu "doce estilo". Doce estilo pelo sentimentalismo comovido, abundante em lágrimas e suspiros, que levará o coração do amante a identificar-se plenamente com a amada. É este o estilo que Dante transformará em dolce stil nuovo.
Mas o ambiente em que a sua escrita decorre é o conhecido ambiente "cortês" e "espiritual" da época.

Há um entrecruzar de referências que nos conduzem por  via do amor de Beatriz, aqui e na Divina Comédia, a outro conjunto de interrogações.
Beatriz é descrita com algo de NOVO, um milagre da Santa Trindade, uma revelação.Temos, no capítulo XII, as falas do AMOR:
É um capítulo carregado de solenidade: Beatriz recusou-lhe a salvação e Dante retira-se para um quarto e tem a visão de um jovem, de vestes muito brancas, que olha para ele, o chama e lhe sorri, dizendo: " Meu filho, chegou a hora de abandonar as nossas ficções".
Quem é este jovem?
Dante julga que é o Amor, que muda muitas vezes de aparência. Mas o jovem desata a chorar e declara:
"Eu sou como o centro do círculo a que se dirigem, equidistantes, todos os pontos da circunferência, mas tu não és assim".
Dante, perturbado, quer perceber melhor.
Mas recebe, como resposta: "não peças mais do que te pode ser útil".
Estranha resposta, que deixa a interrogação do que fazer:evitar excessos? respeitar a distância?
Seguir-se -á  uma longa reflexão, sobre o amor e a relação do que ama com o objecto do amor: terreal, celestial? Operando como, nessa viagem mística, guiado por Beatriz, tão enorme mudança?
A ponderação da Geometria, de uma possivel Quadratura do Círculo, não terá deixado o poeta indiferente, pois há uma Geometria da Alma, no espaço cósmico que culminará no Paraíso, em que a doutrina do Centro, as rosas e a Rosa Suprema no coração do centro, adquirem, por muito que não se queira, simbolismo especial.São conjunturas, quem sabe, mas têm algum sentido.
Um ponto que é o centro cuja luz irradia com tanta intensidade, - era revelação suprema. Do Templarismo da época? O símbolo do centro, do coração como era lido enquanto fonte de vida e luz suprema, era um dos símbolos dos Templários.
Nas Ordens iniciáticas, como as do Santo-Graal, fazia-se coincidir o punctum mundi com o coração de Cristo e  daí, como refere Louis-Paul Guigues (p.19) a veneração posterior do Sagrado-Coração de Jesus. Nas palavras de Cristo: "O meu Pai e Eu somos Um".

Voltando à situação de Dante, perante o Jovem de luz: ele diz-lhe que é o ponto centro do mundo, mas Dante ainda não é nada e está longe de se ter unido a ele.

Não falemos mais, a partir daqui, de amor cortês, mas sim e apenas de via mística para uma União com o Divino de que Beatriz será a mediadora.
A dado momento Dante faz a identificação de Beatriz, luz de vida, com Cristo, luz de renovação.
Beatriz já dissera que estava no coração da GRANDE ROSA, quando lhe lembra que ele andava ainda perdido nos assuntos do mundo...
O que aqui se faz é um apelo à vida contemplativa, ao retiro que se abre ao desejo de união mística com um Sobrenatural que os afazeres (ainda que de paixão) na vida normal não permitiriam. Fechando de novo com uma citação de Louis-Paul, Dante ascende à mudança de uma VITA NOVA para Vista nova, no deslumbramento da rosa, do centro, do coração do Paraíso que se lhe abre e pode finalmente contemplar.








 

.

Sunday, January 24, 2016

Vergílio Ferreira ( 28 de Janeiro,1916-2016)

V.F. faria no dia 28 deste mês, cem anos, leio no Público.
O seu espólio continua a ser estudado, inicialmente pelo seu antigo aluno, leitor e admirador de sempre, Helder Godinho, que fala dele como seu Mestre. No ano em que Almeida Faria - outro seu aluno- publicou Rumor Branco, pensei: começa agora a nova prosa portuguesa, de quem leu Joyce e tem a sua voracidade da palavra e da escrita.
Era um tempo em que predominava, e muito, o neorealismo, de que eu me sentia afastada: começara em Coimbra, pela mão do meu pai a ler Alves Redol, mas aquele irritante ruralismo (as coxas das moçoilas....) para mim, que em  França já tinha lido Zola, e passado para Prévert, Vian, Aragon, Desnos, a revelação de Sagan e Christiane Rochefort, seu antídoto, e não esqueço Sartre, o fundador do existencialismo - para mim, não esquecendo  e estando ainda em Coimbra, a ler Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner - só uma nova escrita tinha sentido e me fazia continuar a ler com entusiasmo.
Agustina de Bessa Luís viria um pouco mais tarde.
Mas voltando a Vergílio: ambos éramos muito pontuais, e nos antigos jantares do Pen Club tendo chegado antes dos outros, íamos sentar-nos em frente um do outro, ao fundo da mesa, e aí ficávamos a conversar. Ele era culto, inteligente, e só não digo encantador porque a seguir chegava Sophia, de quem eu já era amiga além de absoluta leitora, que se sentava ao meu lado.Virgílio não a cumprimentava e explicava-me, em voz alta para que se ouvisse: não lhe falo porque ela é demasiado snob e faz sempre esperar os outros. Depois vim a saber que essa zanga datava de uma ida ao Brasil, em que Sophia fazia esperar os outros, no átrio do hotel, para partirem todos juntos para uma das múltiplas iniciativas literárias do tempo. Era um homem de amuos, pelos vistos. Sabia que a mulher dele era polaca, mas nunca lhe disse que a minha mãe era polaca, embora não refugiada, e trabalhara num escritório de apoio aos refugiados aqui em Lisboa, desde 1939 até irmos em 1946 para a Argentina.
Não disse, porque ele nunca trouxe a mulher consigo a estes jantares e eu não queria ser indiscreta.
Fui lendo a sua obra, aqui e ali, mas eu era de facto de outra geração, e o que  mais me agradava nos seus romances era a dimensão filosófica, não tanto a literária.
O último que me chegou às mãos, já depois de ele ter falecido, ESCREVER, foi um dos que dei a ler no meu seminário de Mestrado de Escrita Criativa  ao longo do ano.
Fico hoje a saber que ele, homem da geração do meu pai, teve como uma das leituras primeiras os grandes russos, e de André Malraux La Voie Royale e La Condition Humaine, que o meu  pai tinha na edição francesa e eu li em Coimbra ainda.
Não admira que a sua querela, com os estruturalistas - coisa de moda, em Portugal, coisa mais séria com Roland Barthes....como é costume entre nós...o tivesse levado a aprofundar ainda mais o seu pensamento sobre a dimensão da existência, o que tem de vasto e o que tem de efémero...
De que falaríamos hoje num dos jantares do Pen? De Davos? da quarta revolução industrial, ou ele diria, sorrindo, que há muita gente que lê mais do que entende?




Sunday, January 10, 2016

As Rosas de Rilke

I
Se a tua frescura por vezes
tanto nos espanta,
rosa feliz,
é porque em ti mesma,
por dentro,
pétala contra pétala,
descansas.

Um conjunto todo desperto,
cujo centro dorme
enquanto os múltiplos
afagos
deste silencioso
coração
se erguem até à boca
extrema


 II

Vejo-te, rosa, livre, entreaberta,
contendo tantas páginas
de pormenores felizes
que nunca serão lidos. Livro
mágico,

aberto ao vento e que
de olhos fechados
pode ser lido...
fazendo confusão às borboletas
que saem dele e tinham as mesmas ideias.


III
Rosa, tu, coisa por excelência
completa
que infinitamente se contém
e infinitamente se dispersa,
cabeça
de um corpo ausente por excesso
de doçura,
nada te é equivalente, oh tu, suprema
essência
da estadia fugaz;
neste espaço de amor em que mal
avançamos
circula o teu perfume

IV
Fomos nós, no entanto
que te pedimos
para encher o teu cálice.
Encantada com o artifício,
a tua abundância ousou.

Tinhas riqueza bastante
para seres cem vezes tu mesma,
numa única flôr;
é como aquele que ama...
Mas não previste mais nada .

V 

Abandono rodeado de abandono,
ternura a tocar
em mais ternura...
É o teu interior
que parece
carícia permanente;

que em si mesmo se acaricia,
através do seu reflexo iluminado.
Assim inventas o tema do Narciso
cujo desejo se cumpriu.

VI
Uma só rosa, é todas as
rosas
e ainda esta: o insubstituível
o perfeito, o flexível vocábulo
enquadrado pelo texto das coisas.

Como dizer, sem ela,
o que foram as nossas esperanças,
as ternas intermitências
na contínua partida.

VII
Apoiando-te, clara, fresca, rosa,
contra os meus olhos fechados -
pareço ter mil pálpebras
sobrepostas

contra o calor da minha.
Mil sonos contra o meu fingimento
sob o qual vagueio

no perfumado labirinto.
  
VIII
Do teu sonho demasiado repleto,
flôr tão numerosa por dentro,
molhada como quem chora,
debruças-te sobre a manhã.

As tuas forças suaves
que dormem num incerto desejo,
desenvolvem as delicadas formas
entre as faces e os seios.

 IX
Rosa, ardente e no entanto
clara,
cujo nome devia ser
relicário
de Santa-Rosa..., rosa
que distribui
esse inquietante perfume de santa nua.

Rosa nunca tentada,
desconcertante
na sua íntima paz; última
amante,
tão distante de Eva, do seu primeiro
 aviso-
rosa que infinitamente possui
a perda.

X
Amiga das horas em que não resta
mais ninguém,
e tudo se recusa ao coração amargo;
consoladora cuja presença
é testemunha
de todas as carícias que flutuam
no ar.

Se renunciarmos a viver,
se renegarmos
o que já foi e o que pode
vir a ser,
não estaremos a esquecer
a insistente amiga
que ao nosso lado faz
seu trabalho de fada.

XI
Tenho uma tal consciência
do teu ser, rosa completa,
que o meu consentimento
te confunde
com o meu coração em festa.

Respiro-te como se fosses,
rosa, a vida inteira,
e sinto-me o amigo perfeito
de uma tal amiga.

 XII
Contra quem, rosa,
adoptaste
esses espinhos?
A tua alegria, por demais
subtil
forçou-te a ser essa coisa
armada?

Mas de quem te protege
a arma exagerada?
De quantos enemigos
 te livrei
que em nada a temiam?
Pelo contrário, do Verão
ao Outono, vais ferindo
os cuidados que te dou.

 XIII
Preferes ser, rosa, a ardente
companheira
dos nossos enlevos presentes?
É a lembrança
que se apodera de ti
no momento feliz que recuperas?

Já te vi tantas vezes feliz
e seca
- cada pétala uma mortalha -
numa caixa perfumada, ao lado
de uma madeixa de cabelo,
ou dentro de um livro amado
que vamos reler sós.

 XIV
Verão: ser por alguns dias
contemporâneo das rosas;
respirar o que flutua
à volta das suas almas abertas.

Fazer de cada uma que morre
uma confidente,
e sobreviver a essa irmã
noutras rosas ausente.

 XV
Sozinha, tu, flôr abundante,
crias o teu próprio espaço;
miras-te num espelho
de perfume.

O teu perfume rodeia
qual outras pétalas
o teu cálice múltiplo.
Prendo-te e tu revelas-te,
prodigiosa actriz.

 XVI
Não falemos de ti. És
inefável
como a tua natureza.
Outras flores ornamentam a mesa
que tu transfiguras.

Colocam-te num simples vaso -
e eis que tudo muda:
é talvez a mesma frase,
mas cantada por um anjo.

 XVII
És tu que preparas em ti
mais do que tu, a tua última essência.
O que sai de ti, emoção
perturbante,
é a tua dança.

Cada pétala consente
e faz no vento
alguns perfumados passos
invisíveis.

Oh música dos olhos
rodeada por eles,
tu no meio tornas-te
intangível.

 XVIII
Partilhas
tudo o que nos comove.
Mas nós ignoramos
o que te acontece.
Teríamos de ser cem borboletas
para ler todas as tuas páginas.

Há algumas que são
como dicionários;
os que as apanham
têm vontade de encadernar
todas as folhas.
Quanto a mim, gosto
das rosas epistolares.

 XIX
Propões-te
ser um exemplo?
É possível encher-se
como as rosas,
multiplicando a sua subtil matéria
que foi feita para não fazer
nada?

Pois não é trabalhar
ser uma rosa,
dirão.
Deus,
olhando pela janela,
arruma a casa. 

XX
Diz-me, rosa, como é possível
que fechada em ti mesma
a tua vagarosa essência
imponha a este espaço em prosa
os seus enlevos aérios?

Quantas vezes
finge este ar que as coisas
o furam,
ou, amuando,
se torna amargo?
Enquanto à volta da tua carne,
rosa, ele rodopia?

 XXI
Não te dá vertigens
andar à roda
do teu caule,
rosa redonda,
para chegares ao fim?
Mas quando o teu impulso
te inunda,

ignoras-te no teu botão.
É um mundo que rodopia,
para que o seu calmo
centro
ouse o redondo repouso
da redonda rosa.

 XXII
Mais uma vez sais
da terra dos mortos,
rosa, transportando
para um dia de ouro

a felicidade conquistada.
Deram licença, esses
cujo crâneo vazio
nunca tanto souberam?

XXIII
Rosa, tão tardiamente chegada,
que as noites amargas suspendem
devido à sua claridade sideral,
rosa, adivinhas as fáceis delícias
completas
das tuas irmãs de Verão?
Vejo-te durante dias e dias
a hesitar
na tua cinta demasiado apertada.
Rosa que, ao nascer, imitas
ao contrário
as lentidões da morte.

O teu inumerável estado
dá-te a conhecer
numa mistura em que tudo
se confunde,
esse acordo inefável do nada
e do ser
que todos ignoramos?

 XXIV
Rosa, teria sido melhor
deixar-te de fora,
caríssima adorável?
O que faz uma rosa, no momento
em que o nosso destino se esgota?

Não há regresso possível.
Eis que partilhas
connosco, perdida, esta vida
esta vida
que não é do teu tempo.