Tuesday, April 26, 2016

O quotidiano a secar em verso

Ora bem, estava eu a ler ( a continuar) Orhan Pamuk, pois nunca o que se diga dele fica dito para sempre, e eu ainda disse pouco, quando um amigo me envia um livro de uma sua autora e pede uma opinião.
Peguei no livro li, terei de reler, mas logo à partida se foi formando em mim não uma opinião, mas uma reacção àquela escrita, de uma jovem, nascida em 1967, da idade dos meus filhos - o que para mim é jovem, agora que vejo tudo com a distância dos meus 76 anos. Não é o seu primeiro livro, podemos dizer que já tem obra, mas eu nunca tinha lido nada, e este livro de poemas causou-me a impressão de que podia muito bem ser o primeiro.
Ela define-se como poeta, e diz na badana do livro:
" Se tivesse de escolher um poeta, hoje, escolhia três: Camões, Whitman, Herberto Helder". São boas escolhas. Melhor, são excelentes. Significam que lê e gosta de ler, de Camões a H.Helder, do clássico ao que no seu momento (A Colher na Boca) foi o mais subversivo, e de contínuo aprofundamento, ou ampliação, de um imaginário sem igual.
Mas eu descubro outros, americanos, e outros ainda, clássicos do oriente  e contemporâneos, no discurso poético, com ritmo quase de rap, utilização por vezes brusca, ou mesmo rude , da linguagem. E descubro ainda outros, de grande elevação poética e mística, laicizada pela autora. Que não os imita, os interpela.
Esta poesia - preferia quase chamar narrativa poética, por ciclos,
surpreende, porque mesmo na escrita de quotidianos, como os de Adília Lopes, há  uma ironia distanciada, mas não há brusquidão.
E no caso de  Eugénia, se a poesia fosse assinada por um pseudónimo masculino, não me espantaria. A linguagem  é seca, como tantas vezes a dos prosadores ou poetas masculinos. Seca , ou melhor, despida de artifício, mas intensa. Intensa mas algo displicente, o que esconde o melhor do seu sentido de humor: ela pega nas palavras, nos versos, no todo ou em parte da narrativa poética , como quem pega nas roupas que lavou ( cabe à mulher, nas suas funções alquímicas, de transformação, é o que se vê numa das belas gravuras da Atalanta Fugiens, lavar a roupa...matéria a ser sublimada...) e pronto, põe esse quotidiano que é o seu a "secar em verso", na corda da sua (e nossa) imaginação.
Que maneira de lidar com a poesia...dirão alguns? Mas é uma óptima, para não dizer perfeita maneira: é íntima, como toda a poesia que se impõe, ao modo rilkeano (nas cartas a um jovem poeta, a poesia "deve nascer da mais profunda solidão....").
Haverá algo de mais solitário que a função da mulher, lavando roupa? Seja no rio, ainda que possa cantar alegrias ou lamentos, seja fervendo ao lume das secretas cavernas da alma onde se exerce a depuração necessária?
Falo pois de Eugénia de Vasconcellos, e do seu
 O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO, ed. Guerra e Paz, 2016.
"porque é preciso virar a página" diz ela, como epígrafe.
 Na verdade, estão eivados de profundo lirismo religioso - não digo místico, não são êxtases místicos, apesar de algumas referências, não se trata aqui de unificação a um Deus (seja ele qual fôr) que se apossa de um corpo, como no caso das freiras de Loudun, mas de um virar da tal página: falemos do corpo sim, mas da sua natureza já divina de origem, criado à imagem e semelhança..., falemos do Homem, e falemos da Mulher, do re-conhecimento que ela exige.
No capítulo da METAFÍSICA DO AMOR (p.45) logo no início, Amor Fica temos a definição de um amor que seria feito para permanecer, no encontro dos corpos, do desejo, da fusão mais completa.
Seria isso o amor, se tal fosse possível. A narrativa poética é iniciada com a descrição de um velho muito alto e muito velho (Deus? Salomão, o sábio do Cântico dos Cânticos?) que puxando com força a narradora com um nó de limos (podia ainda ser Poseidon, que também amou...) lhe começou a contar:
Dois amantes encontram-se,
a clareza do incêndio acorda
o esplendor dos corpos e os cânticos
antigos que dormem no esplendor dos corpos,
o esplendor dos corpos é
a confusão das coxas, a distracção dos dedos, o sossego dos olhos.
É isso a eternidade:
dois amantes encontram-se.
E o despudor do lirismo até ao rubor de Dionísio.
Assim, pedi ao meu coração que dissesse ao Amor:
Amor, fica,
e se a morte vier, ela que entre pelas portas do mar.
Porque a eternidade é isto.

Paremos um pouco:
Há muito de Herberto Helder, nesta clareza do incêndio - tudo na obra de Helder se incendeia, desde os corpos às palavras que os dizem, mas também a expressão de um puro anseio de eternidade que nunca é concedido aos amantes. A Paixão que o desejo alimenta logo  se extingue.
E o Amor não fica: " Desconhecido de si mesmo o Amor partiu".
Permanece o anseio:
"Se vires o Amor, diz-lhe: Amor fica".

Esta página, que nos parece que se poderia ter virado, foi virada, mas no discurso do Homem velho o fim contraria a definição do início. Os Amantes encontram-se, ardem no fogo que os queima, e com eles a paixão que os uniu.
Ficam as cinzas, é esta a lição do Velho.
Também Rilke dissera, nos CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE, a propósito da Portuguesa, emblema de Amor Eterno, que amar é melhor que ser amado. Não há, na verdade, nenhum Amor eterno.
Em poemas como Vamos dançar, Amor, esta Noite (p.29) do ciclo O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO, a linguagem será bem diferente, a roçar o quotidiano mais prosaico.
Mas não é a vida a prosa do que se vive, a prosa do que se diz, no meio do tanto que ficará por dizer? Não foge ao cliché, se tal fôr necessário, para este longo poema de exclamações vingativas, ao modo bd, como observa, ou de telenovela, digo eu, ou seja : o que está na moda "o que está a dar..." e por aí mais circula. Eugénia é boa observadora...
Este ciclo, que dá o título ao livro, não é contudo, no conjunto do livro, e na minha opinião (vale o que vale) o que mais define os temas da poeta.
É contudo muito desafiante, e embora eu não o transcreva no post que tem limitação de espaço, peço ao leitor que não deixe de ler.
Salta graficamente aos nossos olhos uma outra realidade, de um quotidiano banal, por vezes brutal, e que a autora, magistralmente, ironicamente, exprime numa secura de observação muito sua.
Se adiante reflectirá sobre o Amor que fica, aqui corre à facada, como num fado menor, o Amor que traíu.
Encontro nesta obra tantas referências que são mais do meu tempo, e que a jovem (para mim) autora recupera...
Agora é Mercedes Sosa, com os grandes da bossa nova, que podemos puxar do Youtube vezes sem conta...(p.69 )
E assim vai andando, desde  Dueto com Mercedes Sosa, às Baladas Hebraicas de Else Lasker-Schueller, em NÃO FAZ MEU CORAÇÃO FRONTEIRA COM O TEU?
Toda a leitura feita é transposta nos temas mais reflectidos e dados (postos a secar) a uma nova e actualizada releitura.
Um livro que o Amor atravessa, interpelando.
Vivido, sonhado, desejado, "despejado"...enfim, um livro bom de se ler!







Thursday, April 21, 2016

Orhan Pamuk, sempre ele....

Recebo agora o seu livro, cujo título me atraiu:
A STRANGENESS In MY MIND, ed. de 2015, na tradução inglesa.
Esta é a estranheza que também sinto, será como foi a de qualuer dos meus escritores preferidos, Proust, por exemplo, entre outros, de escrita demorada, fruto de uma atenção ao pormenor que se destaca nos meio de um ambiente mais alargado da família e suas rotinas, ou da sociedade e sua cultura e hábitos, que vão do religioso ao alimentar...Em cada pormenor a identidade ou a diferença, intransponível, quem sabe se talvez mais ainda do que outrora.
A edição da Faber and Faber é sumptuosa, um pouco pesada para mim, mas lerei devagar, e sobre uma cómoda almofada.
Estranheza é o que sentimos, desde logo perante a decisão de escrever, ou continuar a escrever, quando parece que já dissemos tudo, ou outros foram dizendo por nós.
Este impulso que nos leva a olhar de novo à nossa volta e a anotar o que sentimos, ou pensamos, e pode ir da tranquila indiferença a uma revolta mais calada, mais surda, mas a dado momento precisando de ser dita. Quando pelo meio se intercala uma relação de amor quase impossível surge o contraste civilizacional, e a estranheza aumenta: num mundo já tão aberto, tão global, como podem existir, (e existem, ficam mesmo a descoberto) nichos de tão grande fechamento...e podem ser felizes, no sentido mais geral de ficar a viver uma vida agradável, onde pelo menos alguma liberdade e respeito mútuo permitam chegar ao fim da vida no seio de um convívio de espírito mais aberto?
Pamuk vive entre duas culturas, escreve na estranheza ou na admiração de ambas, pois em ambas se encontram valores respeitáveis. A estranheza é contudo grande: por que razão não se encontram, em algum ponto central de conhecimento e reconhecimento? Não somos todos humanos, nascidos do mesmo par primordial? Sentindo as mesmas paixões , quando há paixão pelo meio?
Como já acontecia noutros dos seus romances, ele parte de um episódio, só aparentemente pequeno, insólito, como o de amar a irmã mais nova nascida numa família tradicional de uma pequena localidade turca, ter esperado alguns anos por ela, escrevendo-lhe cartas de amor, e de regresso combinar então que fugiriam juntos, ajudados por um primo, indo viver para Istanbul, para eles o mundo. O estranhamento começa quando o jovem herói, de 25 anos, descobre, ao ver o rosto da amada, que ela não é a irmã mais nova, a quem escrevera tanto o seu amor e saudade, mas a mais velha, com quem teria mesmo de casar agora, por uma questão de honra.
Estão lançados os dados : foi trapaça do pai (as filhas mais velhas tinham de sair de casa antes das mais novas, para casar), ou o destino? E o que sucederá daqui em diante?
Mevlut é o jovem que foi primeiro pastor de ovelhas, na sua terra, e só mais tarde viajou para Istanbul, onde tinha já o pai e o resto da família, e onde agora  vive com a mulher, ganhando a vida como vendedor ambulante.
Ao longo dos vinte e cinco anos que foram passando, Istanbul mudou, e Pamuk, através de pormenores e situações que nos servem de exemplo, por via dos seus heróis, de que Mevlut é o principal, evoca os grandes contrastes que persistem, em pleno século XX: entre uma sociedade ainda provincial e mesmo rural nos costumes e medos, e uma sociedade que se desejou laica e progressista, moldando-se aos costumes alheios e dentro desse desejo tornando-se ainda mais arcaica, e já carregada dos vícios dos outros, da sociedade moderna, bem assimilada e distorcendo o sonho de vida de um simples homem de família, como Mevlut.
Este será o herói da "estranheza no espírito" do próprio Pamuk: de um mundo para o outro, em apenas 25 anos, como ele diz, numa capital que fora para ele, quando jovem, o mundo.
Mas o romance continua, e devemos seguir com ele até ao fim.
Entre o particular e o universal, aí se jogam de novo os destinos da vida.

Thursday, April 07, 2016

Manuel Alegre, do Bairro Ocidental às outras Memórias

Em 2015 Manuel Alegre publicou os seus poemas do Bairro Ocidental, o bairro que na verdade é o nosso país, que ele sempre celebrou nos seus versos, "o poema onde respira o teu país", país de todos nós, a que já nem sabemos se devemos ainda chamar Pátria...
"entre nós e o futuro há arame farpado
levaram o que havia além de nós"
A esta obra aludi já num post anterior.
Passam por este conjunto de textos evocação de poemas, cidades, intervenções políticas, descobertas, e as sempre novas sensações de quando se está a escrever. Ao escrever tudo em nós se renova...
Escrever é a porta aberta de um futuro que se deseja antever, (rever) ainda que criticando.
Isto conduz-me ao seu novo livro, agora lançado noutra bela edição da D.Quixote: UMA OUTRA MEMÓRIA.
Aqui se enumeram toas as leituras fundadoras, todas as memórias que a juventude nos deixa, ao compasso das leituras feitas, dos encontros tidos, das amizades permanentes que ao longo do tempo não se perdem.
Das Canções de Dom Dinis às considerações teóricas de um George Steiner que para mim foi um dos grandes condutores do pensamento mítico-literário do século passado ( é verdade, já estamos noutro século, a relação com o mundo, com a escrita, mudou por vezes tanto que mal se reconhece...) é tão vasta a marca das leituras feitas por Manuel, que nos devia sempre acompanhar como lembrete...não escreve bem quem não leu, quem não lê - a abordagem ligeira de manuais não pode substituir-se ao encontro de um inteiro poema de Camões, de Pessoa, de Sophia...para já não falar de todos os que pelo mundo fora se abriram e abriram os fundos espaços da palavra poética, dita, redita, afirmada ou negada.
"Hoje, como sempre, poesia é liberdade".
Nestas memórias Manuel Alegre responde à pergunta que muitas vezes lhe fazem: como conciliou poesia e luta constante pela liberdade, neste caso política, de pensamento e expressão, num país
fechado numa ditadura de que não se via ainda o fim?
Ele responde remetendo para os poemas de PRAÇA DA CANÇÃO - que foi bandeira de jovens e velhos durante anos e agora de novo reeditado, sem perder nada da sua dimensão universal: as ditaduras continuam, a canção evoca as guerras que ainda hoje se perpetuam, ainda que noutros territórios, e na verdade, por entre mortos e vivos o que sobrou foi isto: o poema "que rima com a vida".
Misturam-se deste modo, nestas memórias, pequenos apontamentos que o momento, a paisagem, o canto de um melro atrevido na colina de Santana, com a evocação de Camões na Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
 Eis a resposta: o poema entre a morte e a vida, o poema que proporciona ao poeta a sua única e perpétua saída.
Assim viveu sempre, desde que eu mesma me lembro, Manuel Alegre, combatente e poeta.
Partilho com ele a admiração por Sophia: li pela primeira vez em Coimbra, o seu livro CORAL, que abriu a enorme lista de todos os outros que fui comprando e lendo.
Conheci-a melhor nos Verões da Granja, de que fugi mal pude, eu que era tão algarvia, acabando por atrair várias famílias granjolas também para o Algarve! O mesmo médico amigo, em Lisboa, nos tratava a ambas de doenças respiratórias....mas ela não parava de fumar, o seu fumo já era a nuvem de poesia que a envolvia com elegância e naturalidade.Manuel, amigo íntimo, esteve sempre presente, como nos conta neste livro, a mim a vida levou-me para outras paragens, e já não a vi no fim de vida.
Leio a obra, evoco os nosso encontros.
Vivi em Coimbra dos 13 aos 18 anos e muitos dos encontros que Manuel Alegre refere, foram em parte meus: Miguel Torga, Paulo Quintela, por via do Teatro Académico, o melhor da minha juventude...entre o TEUC, do clássico grego e o moderno do CITAC.
O palco permite uma liberdade que sentimos como absoluta, embora seja passageira...mas fica a boa memória, e o impulso de sempre...
E assim por diante, não vou repetir as referências a Natália Correia, com quem convivi de perto (apresentei-lhe o poeta e pintor Henri Michaux, por ocasião de uma exposição dos seus quadros na Galeria São Mamede)  e a todos os que se lhe seguem, que Manuel evoca, todos referência do nosso mundo intelectual e que fazem parte do nosso património de cultura e liberdade.
Nestas memórias recupera ainda intervenções de carácter político: reflexões sobre o mundo, a Europa que já não é a que escolhemos, ou sonhámos, mas que é necessário ajudar a que mude, pois se as utopias são difíceis de concretizar não deixam por isso de ser menos importantes como desenho ou desejo de futuro!
Que a voz do poeta não se cale, e que o seu pensamento aberto e livre não ceda, como nunca cedeu, ao que é fácil, pois da facilidade nada nasce que nos amplie e justifique a vida!





Wednesday, March 30, 2016

Ler mais

Volto a ler o livro de Comte-Sponville sobre a Felicidade:
Le bonheur, désespérément.
Filosofamos, diz ele, porque sofremos.
Não sei se concordo: filosofamos porque pensamos, o pensamento torna-nos exigentes, e não necessariamente sofredores!Gosto do modo como termina o livro, recuperando Spinoza:
" a beatitude (leia-se a felicidade) não é o prémio da virtude, mas sim a virtude ela mesma..."
Caímos, afinal na Ética.
E sobre a Ética, o sentido moral da vida, em cada momento, desafio, tentação, haveria tanto a dizer.
Nunca estaremos à altura dessa exigência rara que nos é colocada ao longo da vida, nunca seremos plenamente merecedores de uma tal beatitude.
Podemos praticar esta ou aquela religião, respeitar este ou aquele ou mesmo todos os dogmas, não é na fé, (um dom que nada explica e por isso é aceite sem mais) mas sim no comportamento, na Ética, no respeito que a Moral exige - amar o outro como a si mesmo - que a felicidade pode ser encontrada.
Felicidade no sentido de que se cumpriu a vida, no que a vida exigiu e permitiu.

Ouvimos, ao crescer, que todo o homem nasce livre e com natural aspiração a ser feliz.
Mas o que vemos, ao envelhecer, é bem tristemente diferente...
Num mundo em convulsão nem todos nascem livres, e quanto a ser felizes...está tudo dito.
Talvez por isso o filósofo tenha sentido a necessidade de lembrar e discutir o conceito de felicidade, desde Platão, (relendo o BANQUETE) até aos nossos dias...
Em Platão encontramos claramente, no seu mito do Andrógino, a pulsão da busca do Outro, que permitirá então o ser feliz, por se ter recuperado a completude primordial perdida.
Comte-Sponville desenvolve as ideias de desejo e de esperança, no caminhar para tal felicidade.
Mas mesmo que não se atinja, são o desejo e a esperança que ajudam no caminhar.


Thursday, March 24, 2016

António Carlos Cortez, Animais Feridos


Animais Feridos

Primeira interrogação: de que nos vai falar este poeta? De um tempo cruel em que nenhum ser vivo está inteiro, completo e feliz no seu corpo e na sua alma?
De que toda a espécie humana se forma e deforma hoje em dia numa ferida rasgada, que ela mesma rasgou e não tem cura?
Falemos de animais, como Lautréamont falava da sua pulsão erótica pelo tubarão fêmea. Mas nessa violência primitiva, selvagem por momentos, o poeta sabia que o desejo o transportaria para um outro nível, o que ele ambicionava, da sua criatividade: a abismal fusão com os elementos fundadores, primordiais, de que Gaston Bachelard nos deu conta em muitos dos seus ensaios.
Estas feridas arquetípicas saram, e salvam, devolvem o ser à sua límpida consciência de existir.
Escrevi noutro post àcerca do mais recente livro de poesia de Gastão Cruz, poeta  que trago aqui por saber que A. Cortez o admira e certamente terá lido Óxido, de que me ocorre agora uma estrofe:
de cada vez se torna mais ardente / até ser casa ou roupa ou outra pele / que fere o corpo e finalmente o veste / do nome que é o dele....
Arrumo sempre mal os meus livros, e acontece que ao lado deste último de Gastão se encontrava um anterior, de 1990, de título já muito sugestivo: As Leis do Caos.
Ao longo de uma vida de permanente entrega à poesia, seus segredos, seus ritmos de bater do coração, descubro de repente (como na obra dos alquimistas) que do Caos se forma a Ordem  como nas Doze Chaves da Filosofia, de Basílio Valentino.
Mas não seria preciso ir tão longe: na epígrafe com que Gastão abre o livro, a citação de Eugene O'Neill, no século XX exprime a mesma ideia:
I see life as a gorgeously-ironical, beautifully- indifferent, splendidly suffering bit of chaos (1923).
O Caos é belo porque da sua indistinção, a seu tempo, a Ordem (poética) surgirá.
Em Noite interpel um poema de Baudelaire, o Mestre de todos nós, ainda hoje: Ah que le monde est grand à la clarté des lampes!
Gastão não quer perder a  lucidez  objectiva ( se tal coisa existe, na Arte) com que se definiram os Poetas da chamada POESIA 61.
Mas de verdade é a luz que torna o mundo grande, é a luz, ainda que apenas das lâmpadas acesas na escuridão do quarto, que amplia até ao estertor do infinito os sentimentos, as emoções, as pulsões mais ocultas do desejo.
Na escuridão, como no caos, a luz, a ordem que permite soltar "os leões do sol".
Há neste poema, Noite, um imaginário animal que não passa desapercebido pela sua dimensão simbólica: os leões do sol (é sabido que são o emblema solar da alquimia, por excelência), e a "grande cobra" que figura o "corpo do mundo" que na verdade só a luz poderá redimir da morte exposta.
Inspirando-se em KEATS, Sobre a Morte, já mesmo a fechar o livro, escreve o poeta:
Como é estranho que o homem, sobre a terra perdido / e levando uma vida de dor, o torvo atalho / não rejeite, nem ouse entender que acordar / é do seu caos futuro o único sentido.
Não insisto, deixo ao futuro leitor o que ele mesmo descubra, neste sentido oculto de um caos revelador.

Mas chegou o momento de voltar às páginas de António Carlos Cortez em Animais Feridos.
Comecemos logo pelo primeiro poema Náufragos, em que já na leitura se descobre um ritmo de soneto (os quatorze versos ao modo shakespeareano), um embalar das águas em que os mortos ainda assim parecem existir. A sua vida é isso: movimento.
A poesia de António, na sua harmonia quase obssessivamente musical, contém e contraria uma dôr (uma ferida) que se anuncia e se expõe como se nunca mais fosse vencida.
 De novo aqui os elementos nos envolvem: as águas em que nada se reflecte já; a pedra do olhar; a luz, ainda que negra, ou negra por maioria de razão; o fogo com que se incendiaram as estradas ( os caminhos possíveis e impossíveis).
Mas quando menos se espera- não estaria tudo dito? O poeta retoma a sua palavra para concluir sobre o que aprendeu, pelo caminho, e através do seu naufrágio previamente anunciado - "a vida é afinal /soma de perdas e o mundo / coração de pedra lançado /ao fogo que se vê de longe".
Na treva que envolve um mundo "só de ferro", mesmo assim se alude num último verso a um "cristal que é chama", não desistindo deste jogo de opostos que serão a substância da escrita que a si mesma se impõe o continuar...
Abre-se ao mundo.
Curiosamente, é neste livro de António Cortez que reencontro em parte a expressa doutrina, nem sempre respeitada, dos poetas do grupo de 61.
O olhar que se quer descritivo, objectivo, desenhando, como num mapa de cuidadosa minúcia, os momentos e os lugares. Não irei desfiar os títulos, já de si indicativos, nem muitos dos versos mais sugestivos deste ponto de vista. O leitor fará isso por mim.
Há uma dimensão abrangente, de cariz social, por vezes talvez mais do que poética: a descrição de um bairro, de um bar, evocação de  um pintor, de cidades que se viveram, de um rio como o nosso, que já deixou de ser o das perplexas interpelações de um Fernando Pessoa, e há também, como já em obras anteriores a explicitação que nada oculta, e mal seria se o fizesse, de um conjunto de leituras que me evocam um T.S.Eliott, o da Waste Land, para mim e para os do meu tempo, poeta tão erudito, tão directo e marcante, não descurando de indicar as leituras que conduzem, tantas vezes, o escondido fio do discurso.
Reconheço em António Cortez, neste como já em obras anteriores, uma cultura estruturada que não é comum nos tempos que correm, uma intensidade e uma voz genuína, na sua força, e uma  originalidade que não desdenha de outras vozes, outros antigos começos e recomeços, como quando escreve, também ele, sobre o caos : "Recomeçar / talvez um outro caos" (p.51).
Esta obra tem um título que remete para memórias antigas, por vezes, ou emoções recentes, mas retidas, por razões que só ao poeta dizem respeito. O que impele a mão do poeta, na sua escrita por vezes inesperadamente veloz, é a necessidade de não se perder nelas (ou delas).
Não deixa de ser interessante, para um estudioso da literatura portuguesa, que autores como Helder Macedo, Manuel Alegre e neste caso também, embora de uma nova geração (de um falar mais directo, mais despido, mas não menos original e sentido) esta necessidade de refazer memórias como quem refaz a vida.
A poesia é isso: escreve-se para viver, mesmo falando de sucessivas mortes!
Um acaso como aqueles de que vivemos, sem dar por isso, e que Jung chamava de sincronicidades, faz com que esteja agora a ler Tolentino de Mendonça, referindo-se no Semanário EXPRESSO a uma nova tradução das Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, da autoria de José Justo.
Não há acasos....eu tenho estado, precisamente, a escrever uma Carta que não enviarei a um Jovem Poeta e que interrompi por enquanto, levada por outras leituras e afazeres.
Vou ler a nova tradução, pois de Rilke leio tudo, também em tradução, e gosto de comparar com o original que Paulo Quintela, há tantos anos me deu a ler, em Coimbra.
O jovem deve sentir que a escrita é para si a vida. Se afinal consegue viver bem, consigo e com o mundo, sem que a busca de uma palavra essencial lhe faça falta, o melhor é poupar os futuros leitores...
Diz Rilke: Es gibt nur ein einziges Mittel. "Há apenas uma única maneira". E continua: "Mergulhe em si. Procure o fundamento do que chama escrever (...) confirme se  morreria se lhe fosse negado poder escrever".
A grande questão que se coloca ao futuro poeta é aparentemente simples: "muss ich schreiben?" Acentuando o verbo ter de, ou dever, num imperativo de vida ou morte, se a resposta fôr ich muss, ou o seu contrário.
Escrever é pois, segundo Rilke, um imperativo, ou não é nada e  nada significa.
Rilke tem o cuidado de avisar de que não é crítico literário, nem dá conselhos sobre o que lhe mostrem, pedindo uma opinião. E está certo, a um poeta não se deve pedir uma opinião, ser-lhe-á um exercício difícil. Mas outra coisa é o aprofundar, em cada um, e esse é o conselho dado, da razão do misterioso impulso da escrita.
Nasce da mais funda raiz do ser? Então a escrita impõe-se, por si mesma, e através dela o poeta, ao longo da vida, deverá dar sinal e testemunho desse impulso.
Ora o que nos deixa este novo livro de António Cortez é que também ele vive intensamente a lição de Rilke, e a pratica, escrevendo.
Que os anos futuros o mantenham assim: escrevendo e vivendo para continuar a escrever...e a viver.
Acabo este post numa Sexta-Feira da Paixão.
Deixo os votos, a todos os meus leitores, de uma Páscoa com leituras felizes.









Sunday, March 06, 2016

ROSAS E MAIS ROSAS

(Herberto Helder)


Li A Colher na Boca, no original que viria a ser publicado pela editora Ática em 1961.
Foi um deslumbramento, para mim que, habituada à literatura francesa, lia Prévert, lia Boris Vian e outros, do movimento OULIPO, não esperava, em Portugal, descobrir nada de tão intenso e tão inovador.
De fiel leitora de Herberto tive o privilégio de passar a amiga. Não direi íntima, as nossas vidas eram muito diferentes, mas sempre presente na leitura, na troca de cartas (raras) e de casuais encontros nos cafés do Saldanha.
Em A COLHER NA BOCA escreve o poeta a inciar o poema:
Falemosde casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo.
Casas, um tempo e um espaço arcaicos, é nessa realidade arquetípica que seguiremos, guiados pela mão do poeta. Será um afundamento, na palavra, no seu duro e impiedoso exercício, minuciosamento estruturado.Por muito que possa parecer escrita de mão livre, entregue aos impulsos da chamada escrita automática dos surrealistas, há um ordenamento estrutural na poesia de Herberto Helder que não é de acaso, mas sempre de cultura fina, de requinte subtil, ainda que por vezes oculto.
O poema segue, e não é logo de rosas que nos falará:
...
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta / do gosto, o entusiasmo do mundo.
De amoras a amores, dos corpos de gente citados logo a seguir,a dedução seria fácil. Mas não será disso que se trata. Seguem-se elementos primordiais, fontes (água) pedras (ossos que são da terra), alguma coisa celeste (ar), como fogo exemplar (fogo).

Nada mudou, na aparência: estas são sempre as casas.
São centro, e fundamento.
Mas já entretanto vão chegar as rosas...
Referem-se os arquitectos que não viram as torrentes infindáveis / das rosas, ou as águas permanentes / ou um sinal de eternidade espalhado nos corações / rápidos.
Alguma coisa passou ao lado dos virtuais construtores de um universo invisível, montanha e mar fundiram-se entretanto, para que animais e estrelas / homens e mulheres ...ardessem devagar.

Volta-se então de novo, a falar de casas, e do que são: Casas são rosas / para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança / nos abandona para sempre.

O poeta convida, no fim, à reflexão sobre a alma e a morte.
As casas, de que desejou falar, abarcam o universo, o pequeno (do homem) e o grande (da matéria divina, toda por conhecer). Enumerados os elementos, que são quatro, na sua tradição, faltaria enumerar os princípios, que seriam três, se fossem convocados.
Não foram.
A rosa permanece fechada, como a de Rilke, na sua rotundidade perfeita, secreta, inominável.
O exercício pedido é o da paciência: como na oração de um alquimista, que tenho citado muito:
ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies (MUTUS LIBER).

Falemos de casas, diz o poeta, como quem fala da sua alma,
 entre um incêndio,
 junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.

Assim se fecha o ciclo: das casas, centro da vida, às rosas, espelho da alma.
Ocorre-me mais uma citação alquímica, do Rosarium Philosophorum: dat rosa mel apibus, a rosa dá  mel às abelhas...



Monday, February 01, 2016

Mais rosas

Falemos de Le Roman de la Rose, obra bem conhecida, súmula das práticas místicas e simbólicas do amor cortês, na França do século XIII.
Guillaume de Lorris (c.1230) e Jean de Meun (c.1275) são os autores, descrevendo em sucessivas alegorias o percurso aventuroso de um cavaleiro que é conduzido em sonhos a um Jardim paradisíaco e aí se deixa enebriar pelo perfume dos roseirais e de uma rosa em especial. Guillaume começa, escrevendo entre 1225 e 1230, e Jean continua e termina, entre 1269 e 1278. A este último se deve a amplificação do sentido das alegorias a uma reflexão mais profunda sobre a Natureza e a Condição Humana (aperfeiçoamento constante para atingir uma Plenitude de que a Rosa vermelha será o arquétipo central).
Por ela, por não desistir de colher esse precioso botão, será o coração do herói perfurado pelas flechas que Amor, ciumento, lhe crava no coração, até que obtém da sua parte uma jura de fidelidade eterna.
Considerado a par da Divina Comédia de Dante, numa Paris que no século seguinte já é centro de doutrinas e disputas teologoais, filosóficas, científicas e literárias - chama-se a Paris rosa mundi - rosa do mundo, com tudo o que isso implica de beleza, de certeza, de paixão, o Romance da Rosa adquire um estatuto que ainda no século XVII persiste entre os estudiosos, apesar de Boileau e Descartes introduzirem um pensamento novo, no tocante à filosofia e à escrita (ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement, regra que colide frontalmente com o exercício prazenteiro de uma narrativa mítica e simbólica, por vezes obscura, como na meia-luz dos sonhos).
Lorris e Meun antecipam Freud e Jung, ou alguns dos românticos alemães, ao valorizar a mensagem contida nos sonhos, de que dizem que, se não é logo entendida, mais tarde se verifica quão verdadeira se torna.
Muito do simbolismo do Romance pode ser colocado a par dos mistérios antigos, como o do Burro de Ouro, que Marie-Louise von Franz tão bem nos descreveu.
 Nesta obra de Apuleio, do século II da era cristã, acompanhamos as vicissitudes de um herói, Lucius, que uma vez iniciado nos ritos de Isis será redimido da sua forma de Burro ( com que foi castigado por tentar práticas de magia). É num sonho que a rainha dos céus (Isis) lhe aparece e lhe diz que terá de comer uma coroa de rosas que no dia seguinte, num determinado cortejo ritual, lhe será oferecida. Assim acontece, e ei-lo feito sacerdote de Isis e Osiris, para sua redenção.
Temos ainda de nos lembrar que os século XIV e XV são na Europa os expoentes das Novelas de Cavalaria, e que as normas do "Serviço" à Dama são as mesmas, ou quase sempre, as que se foram buscar ao Romance da Rosa e aos seus códigos de virtude e moral.
Temos em Dante o exemplo de Beatriz dizendo ao amado que se afaste, pois não está ainda devidamente "purificado". Só mesmo diante da Rosa Centro do mundo e termo da viagem, poderão unir-se. Não um ao outro, mas ambos a ela, na Rosa que contemplam.

Recordo aqui que já existiam na França do século XII, como até em Portugal, nos cancioneiros primitivos, obras como Le Coeur Mangé, dos séc. XII e XIII, contendo narrativas de tom erótico e cortêz, em que o olhar duro e directo sobre os costumes (bons e maus) da sociedade são apresentados em textos de lendas, fantasias, mistérios e monstruosidades que projectam, como diz Claude Gaignebet no seu prefácio (ver edição em francês moderno por Danielle Régnier-Bohler, Stock+plus,1979), o imaginário sexual e amoroso do tempo.
Mas tal não impediu que outros autores se esmerassem na sublimação dos seus desejos e emoções.
Temos pois a Rosa, temos o Coração, - a Alma, na verdade, termo que ainda não utilizei, a Psique e as suas pulsões mais fundas: o desejo de ser, o desejo de ser-para-o-outro (para poder ser para si mesmo) como justificação plena e matriz da existência.
Quando li pela primeira vez o Romance da Rosa, há muitos anos, achei-o confuso e difícil de chegar ao fim. Nem me lembro se cheguei ou não fim, o que me teria feito perder um dos momentos mais significativos, no tocante ao conhecimento dos processos e dos símbolos alquímicos, pelso quais eu já me interessava.
Na verdade este Romance é uma obra complexa, estruturada em vários níveis e tem de ser lida de um modo que os separe e distinga, para que se entendam em cada momento.
A lógica da narração não é a da coerência, da evidência, nos processos usados. A lógica é a do sonho, que funciona por acumulação inesperada de situações, conforme cada qual vai surgindo.Uma vez aceite este princípio, poderemos, na nossa leitura, entender melhor e desfiar os acontecimentos. Num primeiro nível temos uma espécie de iniciação(daí que o autor se demore na existência e descrição da importância do seu sonho); a revelação que o sonho iniciático permite é da descoberta de um jardim paradisíaco, onde flores, pássaros, animais vários recriam um ambiente de quase lirismo pastoril. A diferença, em relação ao que poderia ser mera descrição, como tantas, é que o autor entretece, pelo meio, um conjunto de alegorias, de vícios e virtudes, com os nomes adequados a cada uma dessas personagens que se tornam intervenientes e construtoras da trama da narrativa. Desse modo define um código de comportamento que é o do cavaleiro cortês.
E segue a aventura, e seguem as peripécias, sem que ele perca de vista o supremo objecto do seu amor e da sua Quête, a rosa perfeita vislumbrada no jardim.
Temos pois, num primeiro nível de leitura, a importância do (desregramento) da lógica do sonho, imperativa a seu modo e profética na sua consequência, imediata ou tardia.
Temos, de seguida, a apresentação, pela via alegórica das normas e procedimentos de códigos de conduta de uma aristocracia cavalheiresca.
E sempre a perseguição dessa rosa imutável e cada vez mais distante.No capítulo XIV, já da autoria de Jean de Meun, fala-se então da alquimia, como arte da transmutação.
Descreve-se a Fénix, a ave que renasce das próprias cinzas, como exemplo da perenidade das espécies, de que a NATUREZA se ocupa, na su forja da Vida; referem-se o enxofre e o mercúrio - para o trabalho dos metais (a sua transmutação); no capítulo XV transita-se para a visão do cosmos, que é, como a de Dante, o cosmos ptolomaico, mas com outra inovação trazida ao pensamento: a do livre-arbítrio, que na astrologia podia ser contrariado, contrariando a doutrina cristã.
A questão ou os vários questionamentos de doutrinas teológicas ou filosóficas abundam, fornecendo mais um último nível de leitura e reflexão.
É sempre, nestes últimos capítulos, a Natureza que expõe o seu pensamento, introduz lendas e mitos, considerações sobre os diferentes estratos sociais e suas obrigações (como no capítulo XVII) -distinguindo nobreza de nascimento e nobreza de coração, ou no cap. XVIII a descrição da Fonte de Vida (sabemos que é, na Arte da alquimia, a fonte do Saber Supremo).
A caminho do sucesso final, Vénus reaparece, o Amor, a chama da Natureza, que a alimenta e perpetua, permitirá que o Amante lutador e fidelíssimo colha então a sua Rosa. Nasce o dia e o narrador desperta do seu sonho.
Veja-se: o Romance começa com a narrativa de um sonho, por Guillaume de Lorris, aos seus vinte anos, e que ele se "obriga" a contar, por imposição do AMOR:
 "c'est Amour qui m'en prie et me l'ordonne. Et si quelqu'un me demande comment je veux que ce récit soit intitulé, je répondrai que c'est le Roman de la Rose qui renferme tout l'Art d'amour". 
E o mesmo Romance termina pela mão de Jean de Meun quando, colhida a rosa da maturidade que se adquiriu (j'eus la rose vermeille) o dia nasce e o herói acorda.
A nós, agora de reler para entender...como nos dita o Liber Mutus:
ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies.